A segunda-feira, 17 de novembro, colocou a política paraibana diante de um cenário incomum: dois movimentos de grande repercussão dividindo atenção, manchetes e conversas de bastidor. De um lado, a filiação de Cícero Lucena ao MDB — um ato pensado para ser apoteótico, e que de fato se mostrou como tal. Do outro, o governo João Azevêdo ocupando sua própria vitrine com uma série de anúncios de forte impacto social e econômico.
Não se trata de sugerir coincidências – porque não existem coincidências em política. – mas uma segunda-feira em que a disputa simbólica pela narrativa do dia ganhou contornos raramente observados na política recente da Paraíba.
A festa do MDB virou largada
A Maison Blu’nelle, no Pedro Gondim, virou palco de um dos atos mais cheios – e mais ruidosos – dos últimos anos na capital. Prevista para as 15h, a filiação de Cícero só alcançou sua formatação definitiva após as 18h, com a chegada de Baleia Rossi, Veneziano Vital e do próprio prefeito, todos vindos do aeroporto.
Atraso não foi problema. A casa já estava lotada: bandeiras, frevo, discursos improvisados, e uma mobilização pouco usual para um ato de filiação. O clima era de largada oficial para 2026.
Cícero aproveitou a ocasião para reforçar seu novo posicionamento político – desta vez em tom crítico ao governador João Azevêdo, de quem era aliado até poucos meses atrás. Disse que a base do governo representa uma união de interesses e afirmou que sua candidatura tem motivação espiritual. Apontou ainda uma sobrecarga na saúde de João Pessoa, alegando que a capital atende demandas que seriam responsabilidade do estado.
As falas contrastam com declarações antigas do próprio prefeito, que chegou a chamar o governo João de o melhor da história. A mudança de tom foi percebida pelos presentes e imediatamente repercutiu nos bastidores.
Enquanto isso, na Granja…
Quase no mesmo horário em que as bandeiras tremulavam no Pedro Gondim, o governador João Azevêdo anunciou uma série de medidas de peso, com efeitos diretos sobre o fim de ano dos servidores e sobre áreas sensíveis como segurança pública e assistência social. Foram divulgados, de uma só vez:
• pagamento da segunda parcela do 13º salário
• pagamento das folhas de novembro e dezembro
• abono natalino para mais de 600 mil famílias
O conjunto desses pagamentos deve injetar 2,8 bilhões de reais na economia em menos de um mês.
Logo depois, o governador participou de uma solenidade na Procuradoria-Geral de Justiça para anunciar um acordo envolvendo Ministério Público, Uber e Secretaria de Segurança: um botão de acionamento direto do 190 pelo aplicativo, voltado principalmente à proteção de mulheres vítimas de violência.
E, ainda no mesmo dia, confirmou auxílio emergencial de 2 a 3 mil reais mensais, durante três meses, para quem perdeu renda no episódio do rompimento da caixa d’água da Cagepa em Campina Grande.
Dois movimentos fortes, um só dia
O resultado final da segunda-feira foi, mais do que uma coincidência de agendas, um choque de protagonismos. Um prefeito entrando oficialmente na disputa de 2026, em evento tomado por simbologia eleitoral, contra um governador exibindo ações de peso, de grande alcance social e com efeitos imediatos.
Nenhum dos lados admitirá que tenha montado sua agenda olhando a do outro — e, de fato, a reportagem não sugere isso. Mas o eleitor e o observador político assistiram a um raro momento em que governo e oposição, cada qual em seu palco, buscaram ocupar o centro da narrativa em um mesmo dia.
Foi a Paraíba quem viu, e quem tirará suas próprias conclusões