João Pessoa, sábado, 22 de agosto de 2026
Um beijo em Hugo Motta e a distância de João Pessoa: os sinais que Lula manda para a Paraíba 
22/08/2026 09:08
Redação ON Reprodução

O beijo dado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na testa do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), durante ato de campanha realizado em Natal, ganhou repercussão nacional e provocou inevitáveis interpretações políticas na Paraíba. O gesto público de afeto confirmou a proximidade construída entre os dois, mas também pode ser lido como uma forma de compensação diante de um assunto ainda mal resolvido: a disputa para o Senado no estado.

Hugo integrou a comitiva presidencial que participou, na quinta-feira (20), do primeiro grande ato de campanha de Lula fora de São Paulo. O carinho demonstrado pelo presidente não foi gratuito. Nos últimos meses, o deputado paraibano tem colaborado com o governo no encaminhamento de matérias importantes na Câmara e desempenhou papel relevante na reaproximação de Lula com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).

A relação política avançou ainda mais quando Hugo, poucos dias atrás, anunciou apoio à reeleição de Lula, apesar da neutralidade nacional adotada pelo Republicanos. O presidente da Câmara declarou que a continuidade do petista é a melhor opção para o país e colocou seu grupo político na Paraíba à disposição da campanha presidencial.

O problema é que a generosidade de Hugo ainda não recebeu a retribuição que ele mais deseja. O deputado trabalha para conquistar o apoio de Lula à candidatura de seu pai, o ex-prefeito de Patos Nabor Wanderley (Republicanos), ao Senado. Até agora, porém, o presidente mantém publicamente sua preferência pelo ex-governador João Azevêdo (PSB) e pelo senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB).

Lula já apareceu em vídeos pedindo votos para João e Veneziano. O presidente nacional do PT, Edinho Silva, também reafirmou que os dois são os candidatos de Lula ao Senado pela Paraíba. Nessa divisão, Nabor, embora participe de uma chapa aliada ao PT no estado, ficou fora da dupla escolhida pelo presidente.

É nesse ponto que o beijo na testa de Hugo ganha uma interpretação tipicamente política. O gesto transmite respeito, afeto e reconhecimento pela parceria construída entre os dois. Mas também pode funcionar como um afago diante da resistência de Lula em incluir Nabor entre seus candidatos ao Senado. Em outras palavras, o presidente demonstra carinho pelo filho sem assumir compromisso eleitoral com o pai.

A visita de Lula a Natal, a menos de 200 quilômetros de João Pessoa, sem qualquer passagem pela Paraíba, acrescentou outro elemento a essa equação. Oficialmente, a campanha nacional informa que, neste primeiro momento, serão priorizados os estados governados pelo PT e os maiores colégios eleitorais. O Rio Grande do Norte é administrado pela petista Fátima Bezerra e oferece ao presidente um palanque sem as divisões encontradas entre seus aliados paraibanos.

Na Paraíba, Lula teria dificuldade para subir em um palanque sem desagradar parte de sua base. O PT integra a aliança que sustenta a reeleição do governador Lucas Ribeiro (PP), chapa na qual João Azevêdo e Nabor Wanderley disputam o Senado. Ao mesmo tempo, o presidente mantém uma relação histórica com Veneziano, candidato à reeleição em outro palanque, ao lado de Cícero Lucena (MDB).

Uma visita no primeiro turno obrigaria Lula a administrar essas contradições diante das câmeras. Se repetisse o pedido de votos para João e Veneziano, criaria constrangimento para Nabor e para Hugo Motta. Se incluísse Nabor, contrariaria compromissos políticos assumidos anteriormente. Se evitasse falar sobre o Senado, sua omissão seria interpretada como falta de apoio a todos.

O coordenador da campanha de Lula na Paraíba, professor Charliton Machado, admitiu nesta sexta-feira (21) que a divisão entre os palanques aliados dificulta a presença do presidente no estado durante o primeiro turno. Segundo ele, a visita deverá ocorrer, provavelmente, apenas numa eventual segunda etapa da eleição, quando o cenário estadual estará mais definido e parte desses conflitos poderá ter sido resolvida pelas urnas.

Assim, tanto o beijo em Hugo quanto a decisão de passar por Natal sem atravessar a divisa da Paraíba parecem obedecer à mesma lógica: Lula preserva uma relação estratégica com o presidente da Câmara, mas evita enfrentar agora a delicada disputa pelo seu apoio ao Senado. Enquanto a visita é adiada, o beijo serve como demonstração pública de proximidade — e, talvez, como um pedido silencioso para que Hugo espere um pouco mais.

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