João Pessoa, terça-feira, 20 de outubro de 2026
Trump pode perder o controle do Congresso: o que muda para o Brasil, imigração e investimentos em 2027?
19/10/2026 15:09
Redação ON Reprodução

Faltam 18 dias para as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro, e o resultado poderá alterar o equilíbrio de poder em Washington durante os dois últimos anos do governo de Donald Trump. A votação ocorrerá poucos dias depois do eventual segundo turno da eleição presidencial brasileira, previsto para 25 de outubro, ampliando as incertezas sobre as relações comerciais, diplomáticas e migratórias entre os dois países em 2027.

Os americanos escolherão os ocupantes das 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e de 35 das 100 vagas do Senado. Atualmente, os republicanos controlam as duas Casas, mas pesquisas eleitorais apontam dificuldades para o partido manter sua maioria. O modelo estatístico do The Economist, citado pela revista Exame em 16 de outubro, atribuía aos republicanos apenas 4% de probabilidade de preservar o controle da Câmara. A estimativa representa uma projeção, não um resultado eleitoral.

Para Daniel Toledo (foto acima), advogado especializado em Direito Internacional e imigração nos Estados Unidos, fundador da Toledo e Advogados Associados e professor honorário da Universidade de Oxford, a discussão envolve os limites jurídicos do poder presidencial e os possíveis efeitos das decisões americanas sobre brasileiros que vivem, trabalham ou investem no país.

Uma eventual vitória democrata não significaria uma mudança imediata nas relações com o Brasil. Entretanto, uma nova maioria legislativa poderia ampliar a fiscalização sobre o Executivo, influenciar negociações orçamentárias e dificultar a aprovação de determinadas propostas. Os efeitos dependerão das competências de cada instituição e das medidas efetivamente adotadas.

Trump pode perder o Congresso e continuar deportando imigrantes?

A imigração será um dos principais temas a acompanhar após as eleições. Mesmo que os democratas conquistem a maioria na Câmara ou no Senado, Trump continuará responsável pela administração dos órgãos migratórios, incluindo o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE).

O Congresso poderá ampliar investigações, convocar autoridades e discutir os recursos destinados às operações migratórias. No entanto, uma mudança de maioria não suspende automaticamente deportações nem revoga normas existentes.

Para brasileiros em situação irregular, isso significa que as obrigações migratórias continuarão válidas, independentemente do resultado eleitoral. Processos de remoção, pedidos de asilo e solicitações de regularização seguem procedimentos administrativos e judiciais específicos.

A principal mudança poderá ocorrer na capacidade do Legislativo de fiscalizar operações, questionar prioridades do governo e negociar o financiamento das políticas de imigração.

Green Card e vistos de trabalho podem mudar em 2027?

Brasileiros que pretendem morar legalmente nos Estados Unidos também deverão acompanhar a nova composição do Congresso. Categorias como EB-1, EB-2 NIW, EB-3 e EB-5 possuem requisitos previstos na legislação, enquanto os procedimentos de análise são conduzidos por órgãos federais.

Alterações estruturais nas cotas de imigração permanente geralmente dependem de aprovação legislativa. Já critérios operacionais, procedimentos e orientações administrativas podem sofrer ajustes dentro dos limites legais.

No EB-2 NIW, destinado a profissionais que atendem a requisitos específicos de qualificação e interesse nacional, mudanças na interpretação dos critérios podem influenciar a preparação e a avaliação dos processos. O EB-5, voltado a investidores, exige aportes qualificados e geração de empregos, conforme as regras aplicáveis.

Para empresários, modalidades como L-1 e E-2 também merecem atenção, especialmente quanto à estrutura das empresas, nacionalidade do solicitante e requisitos de elegibilidade.

O resultado eleitoral, portanto, não garante ampliação ou restrição automática de vistos. O impacto dependerá de novas leis, decisões administrativas e eventuais determinações judiciais.

Lula ou Flávio Bolsonaro: como ficará a relação com Trump?

O resultado da eleição brasileira acrescentará outra variável às relações bilaterais. Uma eventual reeleição de Lula poderá manter divergências diplomáticas com Trump em temas como comércio, soberania, meio ambiente e posicionamentos internacionais, sem impedir negociações econômicas entre os países.

Caso Flávio Bolsonaro vença, poderá haver maior aproximação política com a Casa Branca, dependendo das prioridades adotadas pelos governos. Entretanto, alinhamento ideológico não garante redução de tarifas, flexibilização migratória ou vantagens comerciais.

A composição do Congresso americano também terá importância. Uma maioria republicana poderá facilitar a tramitação de propostas apoiadas por Trump. Já uma maioria democrata em uma ou nas duas Casas poderá ampliar a fiscalização e exigir maior negociação legislativa.

Mesmo assim, o presidente americano continuará exercendo competências próprias na condução da política externa. Por isso, o impacto das eleições sobre o Brasil poderá ser gradual, e não necessariamente imediato.

Tarifas comerciais e sanções contra o Brasil podem ser revistas?

As medidas comerciais americanas representam uma preocupação para setores brasileiros como agronegócio, siderurgia, indústria e exportação de matérias-primas.

Embora a Constituição americana atribua ao Congresso competências sobre comércio exterior, diferentes leis permitem ao presidente adotar medidas tarifárias em circunstâncias específicas. Por essa razão, uma eventual vitória democrata não significaria a suspensão automática de tarifas já estabelecidas.

O Legislativo poderá fiscalizar decisões, propor mudanças legais e questionar determinadas políticas. Entretanto, revisões também poderão depender de negociações diplomáticas, procedimentos administrativos e decisões judiciais.

O mesmo raciocínio se aplica às sanções internacionais. Algumas medidas decorrem de legislação específica, enquanto outras são executadas por instrumentos administrativos. Para o Brasil, o cenário exigirá atenção aos atos concretos do governo americano e aos limites estabelecidos pelo Judiciário.

Dólar e investimentos: quais os riscos para 2027?

A proximidade entre as eleições brasileiras e americanas poderá provocar mudanças nas expectativas do mercado financeiro. Questões fiscais, políticas comerciais, juros e fluxo de capitais influenciam a percepção de risco dos investidores.

Entretanto, não é possível afirmar que determinado resultado eleitoral provocará, isoladamente, alta ou queda do dólar. O comportamento da moeda também depende das decisões do Federal Reserve, do Banco Central brasileiro e das condições econômicas internacionais.

Para brasileiros interessados em comprar imóveis, abrir empresas ou transferir patrimônio para os Estados Unidos, o planejamento deverá considerar custos cambiais, tributação, origem dos recursos e obrigações legais nos dois países.

Outro ponto importante é distinguir investimentos financeiros de processos migratórios. Comprar um imóvel ou constituir uma empresa nos Estados Unidos não garante automaticamente residência permanente. Categorias como EB-5 possuem exigências específicas que precisam ser atendidas.

Petróleo, guerra com o Irã e inflação podem influenciar o cenário?

O conflito com o Irã e os preços dos combustíveis também fazem parte do ambiente político americano. A instabilidade no Oriente Médio e os riscos ao transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz podem pressionar os preços internacionais do petróleo e elevar os custos de energia e transporte.

Para o Brasil, uma alta prolongada do barril poderá afetar combustíveis, inflação e custos de produção. Ao mesmo tempo, a condição de produtor e exportador de petróleo poderá gerar efeitos positivos sobre determinadas receitas e empresas do setor.

Uma mudança no Congresso americano poderá ampliar o debate sobre financiamento de operações militares e fiscalização da política externa. Entretanto, Trump continuará exercendo competências presidenciais nessa área, sujeitas aos limites constitucionais e legais.

O cenário também poderá influenciar as relações dos Estados Unidos com a China, a Rússia e outros parceiros estratégicos, com reflexos indiretos sobre comércio, energia e investimentos brasileiros.

O que esperar depois das eleições americanas?

O novo Congresso tomará posse em 3 de janeiro de 2027. Até lá, o resultado das urnas ajudará a definir o grau de apoio político que Trump terá para conduzir sua agenda nos dois últimos anos de mandato.

Para o Brasil, o impacto dependerá da combinação entre o presidente brasileiro eleito, a composição do Legislativo americano e as decisões econômicas e diplomáticas adotadas pelos dois governos.

Na imigração, as atenções estarão voltadas à fiscalização, às propostas legislativas e às regras de vistos. Nos investimentos, os principais fatores serão tributação, câmbio e comércio exterior. Na geopolítica, petróleo, conflitos internacionais e relações com a China continuarão entre os temas relevantes.

Embora uma mudança no Congresso não provoque necessariamente alterações imediatas na relação bilateral, seus efeitos poderão surgir ao longo de 2027, por meio de negociações orçamentárias, novas leis, investigações parlamentares e decisões judiciais.

Para brasileiros que pretendem morar, trabalhar ou investir nos Estados Unidos, o resultado eleitoral deverá ser acompanhado com atenção, mas sem confundir promessas políticas com mudanças efetivas nas regras. O planejamento jurídico, financeiro e migratório continuará sendo determinante para decisões que envolvem patrimônio, carreira e residência no exterior.

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