João Pessoa, quinta-feira, 5 de novembro de 2026
Trump e Flávio: quando erros de uma derrota não produzem arrependimentos
05/11/2026 05:33
Redação ON Reprodução

Donald Trump reconheceu nesta quarta-feira (4) que a guerra contra o Irã contribuiu para a derrota dos republicanos nas eleições parlamentares dos Estados Unidos. Admitiu que o conflito pressionou o preço da gasolina e pesou no voto dos americanos. Mas, diante da pergunta sobre a decisão de iniciar a ofensiva, afirmou que faria tudo novamente. Para ele, impedir que o Irã tenha uma arma nuclear justifica o custo.

Poucos dias antes, no domingo (1º), o senador Flávio Bolsonaro, derrotado na disputa pela Presidência do Brasil, adotou discurso semelhante. Em manifestação divulgada nas redes sociais, declarou: “Não me arrependo de absolutamente nada do que fiz”. Atribuiu sua situação a uma perseguição e apresentou a saída do país como um gesto em defesa do Brasil.

São situações distintas. Trump responde por decisões de governo, entre elas uma guerra. Flávio trata da própria conduta depois de uma derrota eleitoral e de medidas judiciais contra ele. O ponto de encontro está na reação pública: mesmo diante de perdas expressivas, nenhum dos dois oferece espaço para uma autocrítica.

Até que ponto essa firmeza traduz convicção? E a partir de que momento se transforma em discurso para a plateia ou proteção do próprio ego?

Não há como saber o que os dois dizem a si mesmos longe das câmeras. Seria precipitado afirmar que mentem sobre os próprios sentimentos. Também é possível que um político considere determinada decisão correta apesar de seu custo eleitoral. Perder uma eleição não torna automaticamente errada cada escolha feita antes dela.

Mas existe uma diferença entre sustentar uma convicção e se apresentar como alguém que não tem nada a rever. A primeira postura admite debate sobre consequências, alternativas e falhas. A segunda praticamente encerra a conversa.

No caso de Trump, essa resistência apareceu também na explicação para o desempenho de seu partido. O presidente afirmou que, se estivesse na cédula, os republicanos teriam vencido. Disse que o entusiasmo dos comícios não pôde ser transferido aos candidatos. É uma interpretação conveniente: preserva a imagem de força pessoal do líder, mesmo quando as urnas castigam o partido que ele comanda.

Flávio, por sua vez, recorreu à frase “Não saí do Brasil, saí pelo Brasil”. Ao formular dessa maneira sua saída, procura atribuir uma dimensão coletiva a uma decisão pessoal. Na narrativa apresentada pelo senador, não há erro a reconhecer: há uma perseguição a denunciar. Essa é a sua versão dos acontecimentos, não uma conclusão independente sobre eles.

As duas manifestações cumprem uma função política evidente: manter os apoiadores mobilizados. Para quem construiu uma relação de forte identificação com o eleitorado, admitir um erro pode parecer uma ameaça à própria autoridade. A declaração de que faria tudo outra vez oferece à base uma mensagem de continuidade, mesmo depois da derrota.

Isso não demonstra, por si só, falta de sinceridade. Convicção, cálculo político e vaidade podem coexistir. Um líder pode acreditar na própria justificativa e, ao mesmo tempo, utilizá-la para evitar o desgaste de reconhecer responsabilidades.

A pergunta mais incômoda, portanto, vai além do arrependimento íntimo: sabendo de antemão o preço que pagariam — e, sobretudo, o preço imposto a outras pessoas —, repetiriam exatamente as mesmas escolhas? Ou procurariam outro caminho para alcançar os objetivos que dizem defender?

Responder “faria tudo de novo” é fácil diante de uma plateia fiel. Explicar por que nada poderia ter sido feito melhor exige muito mais.

O eleitor não precisa de uma confissão sentimental. Precisa saber se quem pede confiança é capaz de aprender com as consequências dos próprios atos. Porque a derrota pode não mudar uma convicção. Mas, quando não produz sequer uma dúvida, cabe perguntar se a certeza serve ao interesse público ou apenas à preservação de quem perdeu.

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