Entre a vontade de publicar uma ofensa e a necessidade de pedir desculpas, às vezes bastam algumas horas. As consequências, porém, podem durar muito mais. Na Paraíba, três episódios envolvendo manifestações após a derrota de Flávio Bolsonaro expõem esse descompasso: a reação impulsiva ganha as redes, provoca indignação e termina em retratação ou tentativa de retirar de circulação o que foi dito.
A médica Mirna Noia Wanderley, a advogada Nayana Pontes e Luísa Laura Freire protagonizaram situações diferentes, mas ligadas por um mesmo problema: a transformação da insatisfação política em ataques pessoais ou demonstrações de desprezo por quem votou no candidato adversário.
Ex-primeira-dama de Patos, Mirna publicou uma fotografia usando um boné com a inscrição “Make Janja Quenga Again”, uma ofensa dirigida à primeira-dama Janja Lula da Silva. A repercussão ultrapassou as fronteiras da Paraíba e chegou à apresentadora Xuxa Meneghel, que compartilhou um vídeo sobre o episódio e reagiu: “Essa ex primeira é vergonha em cima de vergonha QUE FEIO!”
Diante das críticas, Mirna gravou um pedido de desculpas, reconheceu o erro e classificou a publicação como uma “brincadeira de muito mau gosto”. A explicação veio depois que a imagem já havia alcançado um público muito maior do que aquele que acompanhava seu perfil.
Nayana Pontes.
No caso de Nayana Pontes, esposa do deputado federal Cabo Gilberto Silva e ex-candidata a vice-governadora, a reação ao resultado eleitoral tomou a forma de um aviso aos eleitores de Lula: não deveriam procurá-la para pedir ajuda, emprego, dinheiro emprestado ou colaboração em rifas.
A advogada também chamou a Paraíba de “estado miserável”, provocando críticas e uma nota de repúdio da senadora Daniella Ribeiro. Posteriormente, apagou as publicações. Aqui, cabe uma distinção: retirar um conteúdo não equivale a pedir desculpas. No material divulgado sobre o episódio, o recuo está documentado pela exclusão das mensagens, sem uma retratação semelhante à das outras duas mulheres.
Luisa Laura Freire
Luísa Laura Freire, esposa do empresário Rafael Trappo Domingues, foi além da recusa de solidariedade. Em vídeo, declarou que riria caso um eleitor petista fosse assaltado e anunciou que adotaria uma postura ainda mais radical. Depois da repercussão, voltou às redes na sexta-feira (30), desta vez para reconhecer a gravidade do que havia dito.
“Usei palavras ofensivas. Faltou respeito, faltou humanidade e, principalmente, maturidade da minha parte. A responsabilidade é só minha”, afirmou.
O episódio também repercutiu no perfil do marido, que retirou da biografia do Instagram as referências às empresas. Isso não permite afirmar que houve prejuízo financeiro, mas mostra como uma manifestação pessoal pode alcançar a família e se aproximar da esfera profissional.
Os três casos se encontram nesse ponto: uma postagem feita sob o impulso da revolta pode produzir consequências que seu autor não consegue controlar. O conteúdo deixa de pertencer apenas ao perfil de origem. Passa a circular em capturas de tela, vídeos reproduzidos e notícias. Apagar não recolhe todas as cópias; pedir desculpas não desfaz automaticamente o impacto.
Reconhecer um erro é necessário e merece espaço. Não cabe presumir a sinceridade ou a conveniência de cada retratação. Cabe, entretanto, lembrar que o respeito ao outro precisa existir também antes da reação pública.
Ninguém é obrigado a gostar do resultado das urnas. Criticar o vencedor, fazer oposição e defender outras ideias são atitudes legítimas. Humilhar eleitores, atacar uma mulher com uma expressão ofensiva ou tratar a violência contra adversários como motivo de satisfação são escolhas pelas quais seus autores respondem publicamente.
Para quem ainda transforma frustração eleitoral em vontade de agredir, os episódios deixam um alerta: alguns minutos de destempero podem comprometer relações e reputações construídas durante anos. Pensar antes de publicar continua sendo muito menos doloroso do que tentar reparar depois.

