João Pessoa, sábado, 5 de setembro de 2026
The Economist vê a Venezuela entre o colapso do chavismo e o cálculo de Trump
06/01/2026 05:44
Redação ON Reprodução

Durante meses, Nicolás Maduro tentou vender a imagem de um líder tranquilo, sem temores. Cantou “Imagine” na televisão estatal, falou em paz, descreveu como cordial uma conversa telefônica com Donald Trump e chegou a dizer que dormia “como um bebê”. Tudo isso revelou-se um erro de cálculo monumental. Esta é uma avaliação publicada pelo jornal The Economist.

A captura de Maduro provocou celebrações entre venezuelanos espalhados pelo mundo, de Miami a Santiago. Dentro do país, porém, o clima é de cautela. A queda do líder não significa, necessariamente, o fim do regime. O que se desenha é um cenário ainda instável, marcado por disputas internas e interesses externos.

Trump deixou claro que não pretende apostar na principal líder da oposição, María Corina Machado. Em declarações recentes, minimizou sua força política e sequer citou Edmundo González, vencedor da eleição presidencial de 2024, da qual Machado foi impedida de participar. O discurso do presidente americano aponta para outro caminho: os Estados Unidos assumiriam papel central na reorganização da Venezuela, com foco explícito no petróleo.

Nesse desenho, Delcy Rodríguez surge como peça-chave. Trump afirmou que ela estaria disposta a cooperar e sugeriu que grandes petroleiras americanas investiriam bilhões no país, em troca de estabilidade e abertura econômica. Em público, porém, Rodríguez adotou tom oposto. Disse que Maduro segue sendo o presidente legítimo e afirmou que a Venezuela nunca será colônia de império algum.

A contradição revela o dilema central do regime. Rodríguez é vista como pragmática e mais preparada tecnicamente do que outros quadros do chavismo, tendo conduzido reformas econômicas que deram algum fôlego ao país nos últimos anos. Ainda assim, precisa garantir o apoio das Forças Armadas, onde generais enriquecidos pela corrupção observam com cautela os próximos passos. Um acordo pode preservar privilégios; uma ruptura pode levar à fragmentação do poder militar.

O risco maior é justamente a divisão do Exército. Facções armadas, colectivos pró-regime e grupos criminosos já operam nas ruas. Um conflito aberto ampliaria o caos e poderia levar os Estados Unidos a considerar a presença de tropas em solo venezuelano, possibilidade que Trump diz não temer.

Enquanto isso, María Corina Machado se vê marginalizada no momento em que seu objetivo histórico parece mais próximo. Mobilizar a população, porém, é tarefa difícil. O país está exaurido, empobrecido e traumatizado por anos de repressão. Milhões emigraram, e o medo ainda domina quem ficou.

No plano internacional, o regime também está mais isolado. Cuba, Rússia e China condenaram a ação americana, mas não sinalizaram apoio concreto. Governos latino-americanos criticaram a violação da soberania, mas evitam qualquer confronto direto com Washington. O temor comum é o mesmo: instabilidade e uma nova onda de refugiados.

Com poucos aliados externos, apoio militar incerto e a pressão direta dos Estados Unidos, Delcy Rodríguez pode optar por um acordo. O chavismo já mostrou, mais de uma vez, capacidade de adaptação. Um pacto com o antigo inimigo pode ser apenas mais um capítulo dessa sobrevivência política.

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