João Pessoa, quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Tensão aberta entre Câmara e STF coloca Hugo Motta cada vez mais no olho do furacão
12/12/2025 05:28
Redação ON Reprodução

O clima entre o Legislativo e o Judiciário voltou a azedar de forma intensa. A decisão do ministro Alexandre de Moraes, que determinou o afastamento imediato de Carla Zambelli, foi lida em Brasília como uma resposta direta ao movimento da Câmara de tentar preservar o mandato da deputada, mesmo ela já sendo condenada com trânsito em julgado. A frase que circula nos bastidores resume bem o momento: o STF pode muito, mas não pode tudo — e a Câmara decidiu testar até onde vai esse limite.

A tensão tende a crescer ainda mais. Na semana que vem, os deputados devem votar o caso de Alexandre Ramagem, outro parlamentar condenado de forma definitiva pelo Supremo. Assim como Zambelli, Ramagem aparece na pauta para ter seu mandato avaliado pelo plenário, reacendendo o confronto institucional que já extrapolou a política e entrou no terreno da disputa de autoridade entre os poderes.

Dentro da Câmara, os líderes partidários estão divididos. Um grupo orienta o presidente Hugo Motta a recuar, evitar nova derrota e impedir que o plenário exponha mais uma vez sua fragilidade diante do STF. Outro grupo, no entanto, pressiona para que a Casa “mostre força” e sinalize que não aceitará ser tutelada pelo Judiciário. A “prova de força”, nesse caso, seria manter Ramagem no cargo, mesmo condenado, repetindo o movimento feito com Zambelli.

Para Hugo Motta, esse racha interno chega no pior momento possível. O presidente da Câmara vive sua fase mais delicada. O episódio desta madrugada, em que o plenário poupou tanto Carla Zambelli quanto Glauber Braga — mesmo após orientação contrária e sem articulação consistente da Mesa — reforçou a percepção de que Motta perdeu o comando político da Casa. A frase que correu hoje nos corredores de Brasília sintetiza o desconforto: “Hugo Motta está cada dia mais Severino Cavalcante”.

A comparação não é gratuita. Severino Cavalcante, deputado pernambucano, chegou ao comando da Câmara quase por acidente e caiu meses depois, abatido pelo próprio sistema político que o elegeu. A analogia incomoda os aliados de Motta, mas ajuda a explicar o momento: o paraibano desagrada à esquerda e à direita, perde votações centrais e vê sua articulação ruir em público.

O choque com Arthur Lira escancarou ainda mais o quadro. Lira, padrinho político de Motta, afirmou que a Câmara está “uma esculhambação”. Motta respondeu de forma dura, dizendo que a presidência “não depende da tutela de ninguém”, o que ampliou a tensão e deixou clara a ruptura entre ambos. No xadrez político, a perda de Lira é uma perda estrutural.

Ao mesmo tempo, cresce a conversa de que um movimento conjunto entre PT e PL pode se formar para derrubá-lo. A lógica é simples: Motta rompeu pontes com os dois lados. O Planalto já opera no varejo, negociando voto a voto, e partidos do Centrão passaram a ignorar a articulação da Presidência em pautas sensíveis. A reversão da punição de Glauber Braga — que contou inclusive com ajuda do governo — é tratada como marco simbólico dessa perda de autoridade.

O efeito imediato é uma Câmara instável, com votações imprevisíveis e um presidente no centro da tormenta. A cada nova pauta, cresce o risco político para o paraibano, que agora enfrenta não apenas problemas de articulação, mas a possibilidade real de ser destituído do cargo.

Entre STF e Câmara, o embate ganhou contornos de disputa aberta. E, no meio dessa crise institucional, Hugo Motta se tornou o personagem que simboliza a turbulência: pressionado pelos líderes, contestado pelo plenário, criticado por Lira e observado de perto pelo Supremo. Se a temperatura continuar subindo, o desfecho pode ser semelhante ao de Severino Cavalcante — e esta possibilidade já não é tratada como remota.

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