Há goleadas que animam. Outras apenas cumprem uma obrigação e deixam o incômodo de que faltou quase tudo. A do Brasil sobre a Índia por 4×0 pertence ao segundo grupo. No primeiro encontro entre as seleções principais, o pentacampeão enfrentou um adversário muito inferior e conseguiu transmitir uma sensação desconcertante: até para jogar esse amistoso faltava disposição.
A distância ajuda a dimensionar a cobrança. O Brasil é o sexto colocado no ranking da Fifa; a Índia, a 138ª. É como colocar o Flamengo diante de uma equipe da Série D. Ganhar é obrigação. Golear faz parte da expectativa. E oferecer algum espetáculo deveria ser o mínimo para quem atravessou o mundo vestindo uma camisa com cinco estrelas.
Esta Data Fifa expôs duas coisas. A primeira: ou a CBF encontrou enorme dificuldade para conseguir adversários, ou escolheu mal os testes da retomada após o fracasso na Copa de 2026. Dois amistosos consecutivos contra a Austrália já eram uma programação incomum para uma seleção desse tamanho. Encerrar a excursão diante da Índia tornou ainda mais discutível o valor esportivo da viagem.
A segunda constatação é mais preocupante: nem diante de tamanha diferença técnica o Brasil conseguiu apresentar um futebol convincente. Renovação exige tempo, entrosamento não nasce por decreto e ninguém espera uma equipe pronta no começo de outro ciclo. Mas nenhuma dessas ressalvas explica jogadores sonolentos, movimentação escassa e uma atuação com tão pouca intensidade.
Estêvão mostrou, no primeiro gol, um caminho que seus companheiros poderiam ter explorado. Já perto da metade da etapa inicial, resolveu pela capacidade individual. Se a organização coletiva que Ancelotti ainda não conseguiu estabelecer estava fazendo falta, sobrava talento para desequilibrar. O problema é que o lance pareceu um lampejo isolado.
Vinícius Júnior foi bastante procurado no primeiro tempo, mas produziu pouco. Pedro ampliou numa finalização em que a bola bateu no goleiro antes de entrar, sem que o lance representasse alguma grande elaboração ofensiva. Depois do intervalo, Ancelotti reformulou boa parte da equipe, e Samuel Lino fez o terceiro. Mudaram os jogadores; permaneceu a impressão de um Brasil oferecendo menos do que podia.
O mais embaraçoso apareceu quando a Índia resolveu atacar. Criou oportunidades, desperdiçou chances e levantou sua torcida ao deixar o Brasil acuado em alguns momentos. Uma seleção com tamanha superioridade técnica não deveria precisar desses sustos para perceber que havia uma partida em andamento.
Quem é a Índia
Convém dimensionar o adversário. Conhecida como Tigres Azuis, a Índia nunca disputou uma Copa do Mundo. Seus melhores capítulos estão distantes: quarto lugar olímpico em 1956, vice-campeonato asiático em 1964 e dois ouros nos Jogos Asiáticos, em 1951 e 1962.
O cenário era mais imponente do que o currículo recente dos anfitriões. O Salt Lake Stadium, em Calcutá, comporta cerca de 85 mil espectadores e fica em Bengala Ocidental, um dos grandes centros de paixão pelo futebol num país dominado pelo críquete. É o palco dos rivais Mohun Bagan e East Bengal. Havia história e ambiente para receber o Brasil. Faltou ao visitante corresponder.
Ancelotti volta com mais incertezas do que certezas. Na véspera da eleição nacional, com o brasileiro concentrado numa decisão muito mais importante, esse amistoso já disputava uma pequena sobra de atenção. A seleção, atravessando uma das fases mais difíceis de sua história, pouco fez para merecê-la. Goleou a Índia. Mas não deu ao torcedor um motivo para sentir falta do seu futebol.
