O vazamento do áudio da ligação do senador Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro – no qual o filho do ex-presidente cobra dezenas de milhões de reais para financiar o filme Dark Horse, não foi apenas mais um escândalo na já longa lista da família Bolsonaro. Foi, sobretudo, o episódio que escancarou a profunda rachadura no interior da própria direita bolsonarista. E a prova mais contundente desse racha veio de onde menos se esperava: de um de seus antigos aliados de primeira hora, o jornalista Rodrigo Constantino.
Constantino, que se autodescreve como alguém de direita e independente, fez uma longa análise em vídeo que funciona como um divisor de águas. No início, ele descreve o comportamento padrão da militância: atirar no mensageiro. A primeira reação dos bolsonaristas nas redes sociais foi atacar o The Intercept, desqualificar a fonte e pedir “que se espere o Flávio se manifestar”. Era a clássica tática de matar a mensagem matando o mensageiro. “Isso não pode ser verdadeiro”, resume Constantino, ironizando a postura.
Ele mesmo tomou o cuidado de dizer: “se for verdade, acabou”. Com a confirmação da autenticidade do áudio, a narrativa da militância mudou da água para o vinho. De repente, a pergunta virou: “qual o problema de um banqueiro financiar um filme?” – como se Vorcaro fosse um mecenas comum e não o “banqueiro das fraudes”, figura central no escândalo do Banco Master, que já havia estourado antes. Constantino é ácido ao apontar a ginástica mental necessária para equiparar uma coisa à outra.
Mas o ponto central da sua crítica vai além. O que ele mostra é que a direita bolsonarista se quebrou em duas. De um lado, os que ainda tentam passar pano, que “quer saber de tudo menos da verdade”. De outro, os que, como ele próprio, percebem que o jogo mudou. E não por acaso: o dólar disparou, o mercado reagiu e o Polymarket (plataforma de apostas onde o dinheiro fala mais alto que a militância virtual) mostrou Lula disparando e Flávio despencando. “A turma também não é trouxa”, sentencia.
A análise de Constantino fica ainda mais incômoda para a família Bolsonaro quando ele aponta o óbvio: o PT está festejando. Nas palavras dele, “nem começou a máquina de moer reputação”. Rachadinha, loja de chocolate, esquemas de saúde no Rio de Janeiro – tudo isso será requentado. E a candidatura de Flávio, que mal começou, já aparece dificultada, quando não inviabilizada.
O golpe final, porém, é dirigido aos irmãos Carlos e Eduardo Bolsonaro. Constantino critica abertamente a postura de ambos: em vez de construir pontes, passam o tempo “caçando traidores na Austrália” e “demonizando o Zema”. Como alguém que age assim pode acreditar em vitória no primeiro turno contra a máquina petista? Para ele, essa turma vive numa bolha de rede social, iludindo os eleitores.
E é justamente aí que a rachadura se consolida. Constantino afirma, com todas as letras, que seu papel não é o de “mídia pom-pom” nem cabo eleitoral. Ele não tem político de estimação. Seu partido, diz, é o Brasil – não o PL. Essa declaração, vinda de um dos nomes mais associados à direita radical dos últimos anos, soa como uma pá de cal na ideia de unidade do bolsonarismo.
Ao final, ele resume o drama: “Agora que as pontes foram todas queimadas, como é que a gente faz?” A resposta implícita é cruel: não dá mais. O áudio não foi um mero vazamento. Foi o estopim de uma implosão anunciada. E quando um dos seus principais intelectuais públicos admite, em alto e bom som, que a candidatura de Flávio está inviabilizada, a direita bolsonarista já não pode mais fingir que está tudo bem.
Não dá para passar pano. E Rodrigo Constantino, talvez sem querer, foi quem retirou o pano de vez.
