Documentos obtidos pela piauí indicam que financiamento continuou após Flávio Bolsonaro afirmar que pagamentos haviam terminado; polícia investiga destino dos recursos e possível participação de Eduardo Bolsonaro
Uma reportagem publicada na nova edição da revista piauí revela que o banqueiro Daniel Vorcaro teria continuado financiando Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, por mais tempo do que admitiu publicamente o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Segundo a revista, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) registra o envio de US$ 1,66 milhão em 16 de setembro de 2025 para o Havengate Development Fund, fundo sediado no Texas que administrava os recursos destinados ao filme.
O pagamento ocorreu oito dias depois de Flávio cobrar de Vorcaro parcelas atrasadas. Com a transferência, o total comprovadamente repassado pelo banqueiro para a produção teria subido de US$ 10,6 milhões para US$ 12,3 milhões — mais de R$ 65 milhões pela cotação da época.
A informação contraria uma declaração dada por Flávio Bolsonaro à GloboNews. Ao explicar as conversas reveladas pelo Intercept Brasil, o senador afirmou que o último pagamento de Vorcaro havia sido realizado em maio de 2025.

A piauí também teve acesso a mensagens de WhatsApp que apontam a possibilidade de uma nova transferência em outubro daquele ano. No diálogo, o publicitário Thiago Miranda, que participou da captação de recursos para o filme, pergunta a Vorcaro se ele conseguiria liberar as parcelas atrasadas. O banqueiro responde que havia autorizado mais uma naquele dia.
Miranda informa que avisaria os responsáveis pela produção e menciona que Flávio pretendia telefonar para Vorcaro. Em seguida, o banqueiro pede que suas desculpas pelos atrasos sejam apresentadas ao senador.
Caso essa parcela também tenha sido efetivamente transferida, o valor total destinado por Vorcaro ao projeto pode ter alcançado US$ 14 milhões, aproximadamente R$ 72 milhões. O acordo completo previa um financiamento de US$ 24 milhões. Os documentos conhecidos confirmariam sete parcelas, enquanto a conversa de outubro aponta para uma possível oitava transferência.
Procurada pela revista, a assessoria de Flávio Bolsonaro não esclareceu o valor total nem a continuidade dos pagamentos. Informou apenas que as perguntas deveriam ser dirigidas à produtora responsável pelo filme.
A reportagem também relembra declarações anteriores do senador. Em março, quando foi divulgado que seu telefone aparecia na agenda de Vorcaro, Flávio disse à Folha de S.Paulo que nunca havia mantido contato com o banqueiro. Posteriormente, ao ser questionado pelo Intercept sobre o financiamento de Dark Horse, negou que Vorcaro tivesse bancado o projeto.
Outro ponto levantado pela piauí envolve o Havengate. Flávio afirmou que o fundo era fiscalizado pela SEC, órgão regulador do mercado financeiro dos Estados Unidos, e que havia sido encerrado após o surgimento das primeiras suspeitas envolvendo Vorcaro. Conforme a revista, porém, o Havengate não está submetido à fiscalização da SEC e permanece ativo nos registros fiscais do Texas.
Caminho do dinheiro é investigado
As autoridades investigam o percurso adotado para levar os recursos aos Estados Unidos. De acordo com a reportagem, o dinheiro não saía diretamente das empresas de Vorcaro nem era depositado na conta da Go Up Entertainment LLC, produtora responsável pelo filme.
As remessas teriam sido realizadas por intermédio de Antonio Freixo Junior, conhecido como Mineiro, dono da Entre Investimentos e Participações. O dinheiro era enviado ao Havengate, administrado no Texas pelo advogado Paulo Calixto, especialista em imigração e amigo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
A apuração procura esclarecer quanto do dinheiro recebido pelo fundo foi efetivamente transferido para a produção cinematográfica. Os investigadores também querem saber se parte dos recursos permaneceu no Havengate ou teve outra destinação.
Uma das linhas de investigação busca esclarecer se algum valor poderia ter sido usado para custear a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Até o momento, segundo a própria piauí, não há provas de que recursos enviados por Vorcaro tenham sido desviados para essa finalidade.
A primeira remessa identificada, no valor de US$ 2 milhões, ocorreu em 13 de fevereiro de 2025, mesmo mês em que Eduardo passou a viver nos Estados Unidos. A coincidência temporal despertou o interesse dos investigadores, mas, isoladamente, não comprova irregularidade.
Eduardo afirmou à CBN que investiu US$ 50 mil de recursos próprios para garantir a contratação do diretor do filme e que posteriormente recebeu o dinheiro de volta. Em documentos americanos relacionados ao projeto, no entanto, ele aparece em momentos diferentes como “produtor executivo” e “financiador”.
Agora, a investigação tenta determinar qual era o grau de participação de Eduardo na produção e se ele possuía algum controle sobre os valores mantidos na conta do Havengate. A produtora Go Up foi questionada pela piauí, mas, segundo a revista, não apresentou uma resposta objetiva.

