Durante anos, a política brasileira acostumou-se a produzir candidatos dentro de estruturas tradicionais: partidos fortes, prefeitos aliados, deputados influentes, sindicatos, igrejas ou máquinas administrativas. De repente, surge um personagem que parece desafiar essa lógica.
O influenciador e pré-candidato à Presidência da República Renan Santos, ligado ao partido Missão e ao movimento MBL, transformou-se em um dos principais fenômenos digitais da pré-campanha de 2026. Levantamento divulgado pela Ativaweb DataLab mostra que ele foi o nome que mais cresceu proporcionalmente nas redes sociais no último mês, com avanço de 36,89% e acréscimo superior a 425 mil seguidores. Hoje já acumula cerca de 1,58 milhão de seguidores e lidera os índices de engajamento entre os pré-candidatos monitorados.
O fenômeno chama atenção não apenas pelos números, mas porque surge praticamente do ambiente digital, sem ter ocupado cargos executivos importantes, sem controlar grandes máquinas partidárias e sem contar com uma rede nacional de prefeitos e governadores.
A ascensão inevitavelmente lembra outro caso recente da política brasileira: André Janones em 2022. Naquele momento, Janones saiu praticamente do anonimato nacional para se transformar em um dos protagonistas da disputa presidencial. Sua força não estava nos diretórios partidários nem no tempo de televisão. Estava nas redes sociais.
Assim como Janones, Renan compreendeu que a política digital funciona em ritmo diferente da política convencional. Os dois construíram relevância falando diretamente com o eleitor, reagindo rapidamente aos fatos do dia e produzindo conteúdo em grande volume.
Mas existem diferenças importantes. Janones surgiu como um fenômeno popular conectado às pautas sociais e acabou abrindo mão da candidatura para apoiar Lula. Renan surge ocupando um espaço mais identificado com a direita liberal, apostando principalmente no desgaste da polarização entre lulismo e bolsonarismo e tentando se apresentar como uma alternativa dentro desse campo político.
Há ainda outra diferença relevante: Janones nasceu politicamente em Minas Gerais, um estado com forte tradição de lideranças nacionais. Renan tenta construir um projeto que nasce quase exclusivamente da internet.
É justamente nesse ponto que surge uma questão interessante para o Nordeste e particularmente para a Paraíba.
Por que fenômenos semelhantes raramente aparecem por aqui? A resposta passa por características muito próprias da política nordestina.Na Paraíba, por exemplo, o algoritmo ainda não derrotou o prefeito.
No Nordeste, o poder político continua fortemente ligado à presença física, às alianças municipais e às estruturas construídas ao longo dos anos. Um vídeo viral pode alcançar milhões de visualizações, mas dificilmente substitui a influência de dezenas de prefeitos, vereadores e lideranças comunitárias espalhadas pelo interior.
A política paraibana continua sendo profundamente municipalista. Além disso, o eleitor costuma demonstrar um comportamento mais pragmático do que ideológico. Temas nacionais mobilizam atenção, mas o voto frequentemente passa por questões concretas: obras, investimentos, serviços públicos, saúde, emprego e capacidade de articulação política.
Outro fator é a própria ocupação dos espaços ideológicos. Na Paraíba, o eleitorado de esquerda possui vínculos históricos com o lulismo. Já o eleitorado conservador costuma gravitar em torno do bolsonarismo ou de lideranças regionais tradicionais. Isso reduz significativamente o espaço para projetos digitais independentes que tentam se posicionar entre esses polos.
Não significa que fenômenos como Renan Santos sejam impossíveis no Nordeste. Significa apenas que, até agora, a força das redes sociais ainda não conseguiu superar a força das estruturas políticas locais.
O caso Renan, portanto, pode representar duas coisas ao mesmo tempo: a consolidação de uma nova forma de fazer política nacional e, ao mesmo tempo, uma demonstração de que o Brasil continua sendo um país de muitas realidades eleitorais.
Enquanto parte do eleitorado descobre candidatos pelo TikTok, Instagram ou YouTube, em muitos municípios do interior a política ainda continua sendo decidida na praça, na feira, no gabinete do prefeito e no contato direto com o eleitor.
A grande dúvida para 2026 é saber qual desses dois mundos será mais forte quando as urnas forem abertas. E essa é uma pergunta que vale tanto para Brasília quanto para a Paraíba.