Há quatro anos, em maio de 2022, o cenário eleitoral para a presidência era radicalmente diferente do que se vê hoje. Naquele momento, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparecia nas pesquisas com uma vantagem ampla e confortável sobre Jair Bolsonaro (PL). O Datafolha, em cenário de segundo turno, registrava 58% para Lula contra 33% para Bolsonaro – uma diferença de 25 pontos percentuais. O Ipespe, também em segundo turno, apontava 54% a 35%, vantagem de 19 pontos. A rejeição a Bolsonaro nesse período era altíssima: 60% dos eleitores diziam que não votariam nele “de jeito nenhum”.
Foi nesse contexto que Bolsonaro lançou, a partir de junho e julho de 2022, o que ficou conhecido como “pacote de bondades”. O conjunto de medidas incluía a PEC dos Auxílios, que liberou R$ 41,25 bilhões em gastos extraordinários fora do teto de gastos. O Auxílio Brasil foi ampliado de R$ 400 para R$ 600, beneficiando cerca de 20 milhões de famílias. Foram criados ainda o vale-caminhoneiro de R$ 1.000 por mês e o vale-taxista de R$ 200 mensais, além da redução do ICMS sobre combustíveis, energia e telecomunicações via lei complementar aprovada no Congresso. Houve também antecipação de reajustes de servidores públicos e discussões sobre ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda.
O efeito eleitoral foi imediato e expressivo. Bolsonaro reduziu uma diferença que chegou a 25 pontos em maio para uma derrota de apenas 1,8 ponto percentual no segundo turno, quando Lula venceu por 50,9% a 49,1%. O pacote funcionou, mas não foi suficiente para virar o jogo – Bolsonaro partiu de uma desvantagem gigantesca.
Lula repete a estratégia
Agora, em 2026, o cenário é completamente outro. As pesquisas mais recentes mostram Lula e Flávio Bolsonaro empatados tecnicamente. O instituto Meio/Ideia apontou Flávio numericamente à frente no segundo turno, com 45,8% contra 45,5% de Lula. O Real Time Big Data registrou 44% para Flávio e 43% para Lula. Já o Datafolha, pela primeira vez, mostrou Flávio à frente do presidente, com 46% contra 45%, embora dentro da margem de erro.
Diferentemente de 2022, quando Bolsonaro partiu de uma desvantagem de até 25 pontos, Lula já começa a corrida empatado tecnicamente. E, assim como o antecessor, ele também lança mão agora do mesmo artifício: um novo “pacote de bondades”. As medidas em discussão e anúncio incluem, além do Desenrola, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês, ampliação de programas sociais como Bolsa Família e Minha Casa Minha Vida, novas linhas de crédito consignado para trabalhadores do setor privado, ajuda para quitar dívidas e reajustes para servidores públicos federais. A estimativa de custo total do pacote, segundo projeções de mercado e do Congresso, pode alcançar cifras próximas de R$ 100 bilhões – mais que o dobro do pacote de Bolsonaro em 2022.
A conclusão não é um palpite. É um fato auditável e perceptível nos dados públicos: em dois momentos diferentes, dois candidatos da situação recorrem ao mesmo tipo de estratégia para tentar se descolar do adversário. Em 2022, partindo de uma desvantagem enorme, Bolsonaro quase empatou. Agora, em 2026, Lula parte do empate técnico. O mesmo movimento, aplicado a um ponto de partida muito mais favorável, sugere que Lula pode se descolar de Flávio Bolsonaro de forma mais expressiva do que Bolsonaro conseguiu fazer contra Lula há quatro anos. Isso não é opinião. É o que os números mostram até agora.
