João Pessoa, quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Relatório aponta aumentos de até 100% em cachês e suspeitas em contratos de shows no Nordeste
19/08/2026 13:20
Redação ON Reprodução

Levantamento elaborado pelo advogado Ricardo Bezerra compara contratações realizadas em cinco estados e aponta pagamentos antecipados, possíveis sobrepreços, ausência de notas fiscais e inclusão de despesas comuns nos cachês artísticos

Um relatório concluído em 16 de agosto aponta diferenças expressivas nos cachês pagos a artistas por prefeituras e governos de Pernambuco, Paraíba, Ceará, Sergipe e Maranhão. O levantamento reúne processos administrativos apresentados em ações populares e identifica aumentos que chegam a 100% para uma mesma atração, além de possíveis irregularidades nas contratações por inexigibilidade de licitação.

Produzido pelo escritório do advogado Ricardo Bezerra, o documento consolida contratos firmados entre 2024 e 2026 e divide os problemas encontrados em quatro grupos: falhas na representação exclusiva dos artistas; inclusão de serviços comuns no valor global dos cachês; ausência ou inadequação de documentos usados para justificar os preços; e pagamentos antecipados sem garantias.

Entre os casos destacados está o da banda Calcinha Preta. O cachê, que teria sido de R$ 350 mil em Caruaru, em 2024, passou para R$ 500 mil na Expocrato, em 2025, e chegou a R$ 646 mil no Forró Caju de 2026. Segundo o relatório, o último valor representa aumento de 84,6% em comparação com o contrato pernambucano.

A apresentação de Joelma também aparece no levantamento. A cantora teria recebido R$ 300 mil em Caruaru, em 2024, e R$ 600 mil em Aracaju, em 2026 — exatamente o dobro. Situação semelhante foi identificada nos cachês de Edson Lima e Limão com Mel, que passaram de R$ 200 mil, em Caruaru, para R$ 400 mil no Forró Caju.

Outro exemplo citado é o de Wesley Safadão. O artista recebeu R$ 900 mil em Santa Luzia, na Paraíba, em 2024. Em 2025, o valor chegou a R$ 1 milhão em Pombal e a R$ 1,1 milhão em Santa Rita e no Crato. Já em 2026, o cachê alcançou R$ 1,5 milhão em Santa Luzia, Araripina, Aracaju e Arcoverde, representando aumento de 66,7% em dois anos.

O relatório também compara os valores pagos a João Gomes. O cachê teria subido de R$ 500 mil na Expocrato de 2025 para R$ 750 mil em Arcoverde e Santa Luzia, em 2026. Já Flávio José passou de R$ 200 mil em Caruaru para R$ 350 mil em Arcoverde e Aracaju, uma alta de 75%.

Na Paraíba, um dos casos considerados mais graves pelo documento envolve a contratação de Pablo em Pombal. De acordo com o levantamento, dos R$ 700 mil previstos no contrato, apenas R$ 41 mil corresponderiam ao cachê do artista. Os outros R$ 659 mil, equivalentes a 94,2% do valor total, seriam destinados a despesas como palco, som, iluminação, gerador e produção.

O relatório sustenta que esses serviços poderiam ser contratados por meio de licitação, já que não possuem a natureza singular da apresentação artística. A inclusão de toda a estrutura em um pacote global, segundo a análise jurídica, dificultaria a fiscalização e a comparação dos preços cobrados.

Em Desterro, também na Paraíba, o estudo calcula em R$ 521,2 mil o valor de despesas de logística incluídas nos contratos de Simone Mendes, Rey Vaqueiro, Banda Seu Desejo e Os Neiffs. Somente no contrato de Rey Vaqueiro, esses custos representariam 30% do total.

Também foram apontadas inconsistências na documentação usada para justificar os preços. Em Pombal, Taty Girl foi contratada por R$ 350 mil, embora a nota fiscal apresentada como referência fosse de R$ 180 mil. A diferença, segundo o relatório, corresponde a 94,4%. No mesmo município, a apresentação do grupo católico Colo de Deus custou R$ 130 mil, tendo como referência uma nota de R$ 75 mil.

O levantamento chama ainda a atenção para a Expocrato de 2025. Segundo o documento, R$ 10,97 milhões foram pagos antecipadamente aos artistas. Desse total, R$ 8,65 milhões teriam sido quitados integralmente antes das apresentações. A lista inclui Wesley Safadão, Luan Santana, Bruno e Marrone, Leonardo e o projeto À Vontade.

A análise cita ainda adiantamentos de 50% em contratos celebrados por Desterro, Pombal e Santa Inês, no Maranhão. De acordo com o relatório, os processos não apresentariam justificativas de economia para a administração nem garantias financeiras contra uma eventual não realização dos shows.

Ao todo, o acervo examinado reúne contratos de Caruaru, Araripina, Arcoverde e Flores, em Pernambuco; Santa Luzia, Pombal, Santa Rita, Guarabira, Areia, Curral de Cima, Desterro e Condado, na Paraíba; Crato, no Ceará; Santa Inês, no Maranhão; e Aracaju, em Sergipe. Apenas o Forró Caju de 2026 reúne 68 contratos analisados.

As informações representam conclusões do relatório produzido pelo advogado e integram questionamentos apresentados em ações populares. Eventuais irregularidades e responsabilidades ainda dependem da análise dos órgãos de controle e das decisões da Justiça. As prefeituras, produtoras e artistas mencionados têm direito de apresentar esclarecimentos e contestar os dados.

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