A polêmica sobre o limite de altura dos prédios na orla de João Pessoa voltou ao debate nacional depois que o Jornal do Comércio, de Recife, publicou uma reportagem em tom de alerta sobre os supostos riscos da chamada “lei do gabarito”. O texto descreve a nossa capital como um exemplo de entrave urbanístico, onde a Justiça estaria inviabilizando o crescimento imobiliário ao embargar obras que ultrapassaram o limite de altura permitido.
O jornal chega a comparar a situação com a da capital pernambucana, onde a atualização do Plano Diretor e das normas de uso do solo teria ocorrido “com mais tranquilidade”, permitindo uma expansão imobiliária menos restritiva – e cita como exemplo o bairro de Boa Viagem, onde o gabarito chega a 42 metros.
Mas a comparação ignora um detalhe fundamental: a paisagem que o pessoense decidiu preservar.

A orla de João Pessoa, ao contrário de Boa Viagem, é uma das poucas do Brasil onde o sol ainda chega à areia durante toda a tarde, onde o vento circula livre e onde o mar não é sufocado por paredões de concreto. Essa característica – frequentemente elogiada por turistas e urbanistas – não é acaso: é resultado de uma escolha coletiva.
Ao longo dos últimos 40 anos, a capital paraibana travou sucessivas batalhas contra a verticalização da orla. Foi uma luta conduzida por entidades ambientais, arquitetos, universidades e, sobretudo, pela própria população, que sempre enxergou na baixa densidade de construções um símbolo de qualidade de vida. O limite de 35 metros em até 500 metros da faixa de praia, previsto na legislação estadual e confirmado pelo Plano Diretor municipal, é uma conquista da sociedade pessoense – não um retrocesso.
A Justiça, ao fazer valer essa regra, não está travando o desenvolvimento, mas garantindo que ele aconteça dentro de um modelo sustentável. O crescimento econômico e o respeito ao meio ambiente não são ideias opostas – e João Pessoa é prova viva disso.
Os exemplos de Recife e Boa Viagem são valiosos, mas também ilustram o que João Pessoa decidiu não ser. Quem visita Boa Viagem percebe: depois das três da tarde, as sombras dos arranha-céus cobrem a areia, a ventilação diminui e o mar fica sombrio. A praia, símbolo da cidade, perdeu o brilho natural que um dia teve.
O que o Jornal do Comércio chama de “rigidez” urbanística, os pessoenses chamam de planejamento e prudência.
E o que o mercado imobiliário vê como “obstáculo”, a cidade reconhece como proteção ao seu patrimônio natural e ao seu modo de viver.
Em um tempo em que tantas capitais tentam recuperar o que perderam – o sol, o vento, o horizonte – João Pessoa mostra que preservar é, sim, crescer. Só que de um jeito diferente.