Quando o jabuti cai: Capitã Rebeca, indicada por Hugo Motta e nomeada por Cícero, é retirada da “árvore”
09/01/2026 11:15
Redação ON Reprodução

O afastamento funcional da capitã Rebeca da linha de frente da segurança urbana de João Pessoa está longe de ser apenas um debate jurídico sobre atribuições e concursos públicos. O episódio carrega todos os sinais de um ajuste político interno, desses que raramente são assumidos, mas quase sempre são facilmente identificáveis nos bastidores do poder.

Rebeca não era uma figura secundária na gestão. Ao contrário, construiu uma presença forte, visível e midiática, tornando-se o rosto mais conhecido das ações de fiscalização da prefeitura. Foi apresentada como símbolo de firmeza, de ação e de modernização da Guarda Municipal, além de ter sido celebrada como a primeira mulher a ocupar aquele espaço de comando operacional. Nada disso aconteceu à revelia da gestão. Pelo contrário, foi incentivado, explorado e divulgado enquanto serviu aos interesses políticos do momento.

O ponto que muda completamente a leitura do caso está na origem da nomeação. A capitã Rebeca chegou ao cargo por indicação direta do deputado Hugo Motta, hoje presidente da Câmara dos Deputados e um dos nomes mais fortes da política nacional. A nomeação foi formalizada por decreto assinado pelo prefeito Cícero Lucena, dentro de um acordo político claro, público e perfeitamente integrado à composição da base municipal.

Esse detalhe torna o desfecho ainda mais ruidoso. De uma hora para outra, uma portaria assinada pelo secretário da pasta revogou atribuições que haviam sido concedidas por ato do próprio prefeito. A justificativa veio depois, já no calor da crise: o cargo seria privativo de servidor concursado da Guarda Municipal e estaria sendo ocupado de forma irregular.

A explicação, porém, levanta mais dúvidas do que respostas. Se a função era ilegal, por que foi criada, exercida e mantida por meses? Se havia impedimento jurídico, por que ninguém percebeu antes? E, sobretudo, desde quando um secretário tem força política e administrativa para anular, na prática, um decreto do chefe do Executivo sem que isso represente uma ruptura clara na hierarquia do governo?

É nesse ponto que o contexto político estadual entra em cena. Hugo Motta e Cícero Lucena já não estão no mesmo campo político. O prefeito rompeu com a base governista e migrou para o MDB, redesenhando alianças e deixando antigos parceiros em posição desconfortável. Nesse novo cenário, a permanência de uma indicada direta de Hugo Motta em um cargo estratégico da prefeitura passou a ser, no mínimo, inconveniente.

A súbita “descoberta” da ilegalidade soa menos como zelo institucional e mais como um pretexto funcional para resolver um incômodo político. A capitã Rebeca, que antes rendia dividendos de imagem à gestão, passou a simbolizar uma presença indesejada no novo arranjo de forças. O protagonismo que antes era celebrado passou a ser lido como excesso.

O gesto carrega um recado claro, ainda que não verbalizado: o espaço político do grupo de Hugo Motta dentro da prefeitura já não é o mesmo. E o recado foi dado sem confronto direto, sem discurso duro, mas com uma canetada administrativa que tenta revestir de técnica aquilo que, na essência, é político.

No fim, o caso expõe algo mais profundo do que uma disputa sobre cargos. Expõe como acordos são desfeitos, como alianças se reorganizam e como personagens acabam sendo sacrificados quando deixam de caber no desenho político do momento. A capitã Rebeca virou o rosto visível de um conflito que não começou com ela, mas que terminou recaindo sobre seu cargo.

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