PT vive malabarismo político na Paraíba entre aliança governista e guerra interna
24/02/2026 05:51
Redação ON Reprodução

Com a eleição de 2026 se aproximando, o Partido dos Trabalhadores na Paraíba entrou numa espécie de modo “equilíbrio na corda bamba”. De um lado, a direção estadual sinaliza de forma cada vez mais clara que a legenda tende a permanecer no arco de alianças do atual governo. Do outro, uma de suas principais lideranças históricas no estado transforma em alvo justamente os grupos políticos que hoje comandam esse mesmo palanque.

Nesta segunda-feira, dois movimentos deixaram essa contradição escancarada. Em entrevistas a emissoras de rádio, a presidente estadual do PT, deputada Cida Ramos, deixou claro que a inclinação predominante dentro do partido é seguir aliado ao projeto liderado pelo governador João Azevêdo, que terá Lucas Ribeiro como candidato à reeleição ao Governo e o próprio João disputando o Senado. A fala não é um improviso isolado. No PT, decisões estratégicas raramente nascem apenas no plano regional. Quando uma dirigente estadual verbaliza uma tendência desse porte, ela o faz amparada por sinalizações da direção nacional, que mantém diálogo direto com o governo federal e com os arranjos nos estados.

A declaração de Cida aponta para a continuidade de um alinhamento que tem garantido ao PT espaço institucional no governo estadual e no tabuleiro político local. O discurso de “não ruptura” também revela um cálculo pragmático: em um cenário de polarização nacional, o partido busca palanques minimamente estáveis nos estados para sustentar o projeto presidencial e o desempenho no Congresso.

Ricardo Coutinho

O problema é que, quase no mesmo instante, o PT paraibano viu emergir o outro lado do seu próprio espelho. Em entrevista, o ex-governador Ricardo Coutinho, hoje pré-candidato a deputado federal, fez ataques frontais ao que chamou de “clã Ribeiro” e “clã Motta”, atribuindo a esses grupos uma articulação permanente para inviabilizar sua trajetória política. Ao colocar Progressistas e Republicanos como parte de um mesmo “establishment”, Ricardo atinge diretamente os dois pilares partidários que sustentam o atual arranjo de poder no estado e que, ao que tudo indica, devem compor o palanque majoritário em 2026.

É aí que o malabarismo do PT fica mais evidente. Se a direção nacional confirmar o apoio formal à chapa que une PSB, PP e Republicanos, o partido terá de administrar uma convivência tensa entre o discurso institucional de aliança e a retórica combativa de um de seus quadros mais conhecidos. Na prática, o PT corre o risco de entrar na campanha com dois discursos que não conversam entre si: um de conciliação estratégica no topo da aliança e outro de confronto aberto com os mesmos atores no plano da disputa proporcional.

O dilema não é apenas político, é simbólico. Como sustentar um palanque em que aliados são apresentados, ao mesmo tempo, como parceiros de governabilidade e como representantes de um “sistema” que precisaria ser enfrentado? Como pedir voto para uma chapa majoritária construída com PP e Republicanos enquanto um candidato petista denuncia esses grupos como responsáveis por uma suposta engrenagem de poder excludente?

Esse ruído tende a se amplificar à medida que a campanha se aproximar. O PT da Paraíba terá de escolher se prioriza a lógica do pragmatismo eleitoral, garantindo espaço no bloco governista, ou se assume o custo de uma narrativa mais confrontacional, que pode agradar a militância mais ideológica, mas complica a engenharia de alianças. Manter os dois movimentos ao mesmo tempo é o verdadeiro teste de equilíbrio. E, como toda corda bamba em política, basta um passo em falso para a queda ser ruidosa.

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