Enquanto o Brasil continua dominado pela polarização nacional entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o bolsonarismo, representado hoje pela possível candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República, a Paraíba vive uma situação peculiar. No estado, essa disputa ideológica ainda aparece como um fenômeno secundário, com o protagonismo eleitoral concentrado em outros atores locais.
As pesquisas mais recentes indicam que a corrida pelo Governo da Paraíba caminha, neste momento, para uma disputa central entre o prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (MDB), e o vice-governador Lucas Ribeiro (PP), que aparece em segundo lugar nos levantamentos. Nenhum dos dois, no entanto, representa diretamente os polos partidários nacionais que hoje dominam o debate político brasileiro.
Mesmo assim, duas movimentações recentes começam a sugerir uma tentativa de reorganizar esse cenário e dar mais peso à polarização ideológica no estado.
De um lado, o Partido dos Trabalhadores passou a discutir internamente a possibilidade de lançar candidatura própria ao Governo da Paraíba em 2026. A discussão ganhou força após a confirmação de uma reunião em Brasília entre a presidente estadual do partido, Cida Ramos, e a direção nacional da legenda, onde o assunto entrou oficialmente na pauta.
A avaliação dentro do PT é de que os nomes hoje colocados na disputa estadual — entre eles Cícero Lucena e Lucas Ribeiro — não representariam, na prática, um palanque político capaz de fazer o enfrentamento direto à direita durante a campanha presidencial. Para dirigentes petistas, Lula precisaria de uma candidatura claramente alinhada ao partido no estado, capaz de defender seu projeto político e fazer contraponto a um eventual avanço do bolsonarismo.
Nesse contexto, começaram a surgir alguns nomes dentro do próprio partido, como o da deputada estadual Cida Ramos e o de Maria Luiza Alencar, integrante do Conselho da Presidência da República. Ambos são vistos internamente como quadros capazes de vocalizar a linha política do PT na Paraíba.
Mas há também um personagem que observa esse movimento com evidente interesse: o ex-governador Ricardo Coutinho. Embora não tenha se colocado oficialmente como pré-candidato, seu comportamento político tem chamado atenção. Coutinho já declarou reiteradas vezes que não se sente representado por nenhum dos principais nomes colocados na disputa estadual. Ao mesmo tempo, mantém presença ativa no debate público e nunca descartou completamente a hipótese de voltar a disputar o governo.
Flávio Bolsonaro vem pra cá
Se o movimento do PT busca fortalecer o campo da esquerda, do outro lado o bolsonarismo também começa a reorganizar suas forças na Paraíba.
Está prevista para este mês a visita do senador Flávio Bolsonaro ao estado para oficializar a filiação do senador Efraim Filho ao Partido Liberal. Hoje no União Brasil, Efraim recebeu convite direto do presidente nacional da legenda, Valdemar Costa Neto, para ingressar no PL e assumir o comando estadual do partido.
A mudança representaria uma reconfiguração importante dentro da direita paraibana. Além de se filiar à sigla de Jair Bolsonaro, Efraim passaria a presidir o partido no estado, substituindo o ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga. A expectativa é que o anúncio ocorra em um evento político previsto para o próximo dia 22 de março.
Se confirmada, a movimentação colocaria o bolsonarismo diretamente no tabuleiro da disputa estadual, criando um palanque local alinhado à direita nacional e potencialmente fortalecendo a narrativa de polarização também na Paraíba.
Ainda é cedo para saber se esses movimentos terão força suficiente para alterar o eixo da disputa no estado. Até aqui, a política paraibana tem seguido uma lógica própria, muito mais marcada por alianças regionais e arranjos locais do que pela divisão ideológica que domina o cenário nacional.
Mas o simples fato de PT e PL começarem a se reorganizar indica que a polarização brasileira tenta, aos poucos, encontrar espaço também na política da Paraíba. Se ela vai realmente se impor ao eleitorado ou continuar como um ruído periférico na disputa estadual, é uma resposta que apenas os próximos meses serão capazes de dar.