João Pessoa, sexta-feira, 23 de outubro de 2026
Pressão por posicionamento no segundo turno desafia relação entre influenciadores e marcas
23/10/2026 07:00
Redação ON Reprodução

A cobrança por posicionamento político chegou ao palco de João Gomes na reta final das eleições. Durante um show em Londrina (PR), o cantor leu uma carta em defesa da democracia, da educação e de políticas públicas, após receber críticas por não declarar voto. Sem mencionar candidatos, a manifestação expôs um desafio para o mercado de influência: como administrar a relação com uma audiência que passa a exigir respostas sobre temas que vão além do conteúdo pelo qual conheceu o artista.

Para Thiago Abreu, CRO e cofundador da WC&A. Partners, especializada em marketing de influência e performance, o episódio ajuda a explicar por que o contexto político precisa entrar na avaliação de campanhas comerciais. Na análise do executivo, a relação de um criador com seus seguidores envolve expectativas, valores e vínculos que não ficam suspensos quando uma publicidade é publicada.

“Gestão estratégica de influência significa entender que o criador carrega contexto muito além do produto que está anunciando. Em eleição, esse contexto se amplifica”, afirma Thiago.

O executivo diferencia quem construiu sua presença digital a partir do debate político de quem se tornou conhecido por música, entretenimento ou comportamento. No primeiro grupo, o posicionamento faz parte da relação estabelecida com o público. No segundo, a cobrança pode surgir sem que a política tenha sido um tema recorrente na produção de conteúdo.

Essa diferença importa para as marcas porque uma parceria comercial passa a circular em meio a discussões que a empresa não controla. Na avaliação de Thiago, o risco está em considerar apenas alcance e engajamento na escolha de um criador, sem compreender o histórico de suas manifestações e as expectativas de sua comunidade. A repercussão política pode mudar a maneira como uma publicação publicitária é recebida, mesmo quando o anúncio não trata de eleições.

“Em período eleitoral, o influenciador não é um canal. É uma pessoa com uma audiência que vai cobrar coerência”, diz.

O peso das personalidades digitais também apareceu nas urnas. Segundo a Agência Câmara, Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) ultrapassaram, cada um, três milhões de votos para deputado federal em 2026, estabelecendo recordes para o cargo. Os resultados ampliam o debate sobre a presença de figuras das redes na política, mas não permitem, isoladamente, medir quantos votos vieram de seguidores ou atribuir o desempenho exclusivamente à atuação digital.

Há também uma distinção entre influência comercial e participação eleitoral. Conforme orientação publicada pelo Senado sobre as regras de 2026, influenciadores podem participar da propaganda eleitoral em seus perfis pessoais de forma gratuita, sem impulsionamento. Candidatos, partidos e federações não podem oferecer pagamento, prêmios ou benefícios para que publiquem propaganda eleitoral, inclusive de maneira indireta.

Para Thiago, o desafio das agências é reconhecer essas diferenças e considerar o contexto de cada criador na gestão das parcerias. Isso envolve compreender como sua audiência foi formada, quais temas fazem parte de sua trajetória e como suas manifestações dialogam com os valores da marca contratante.

Na leitura do executivo, a escolha de se posicionar ou não deve preservar a autonomia do criador. Para as empresas, a questão é avaliar a coerência da relação construída com ele e se preparar para administrar eventuais repercussões. O segundo turno termina, mas as manifestações públicas e a maneira como marcas e influenciadores respondem a elas continuam fazendo parte de sua reputação.

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