João Pessoa, quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Prefeito do Recife escorrega em caso que muda regras de concurso e prejudica candidato paraibano
30/12/2025 20:48
Redação ON Reprodução

Um episódio envolvendo o concurso para a Procuradoria do Município do Recife começa a ganhar contornos de escândalo político e jurídico e ameaça arranhar a imagem cuidadosamente construída do prefeito João Campos. A decisão de reclassificar um candidato após o encerramento do certame, beneficiando diretamente o filho de uma integrante do Ministério Público de Contas de Pernambuco, acabou prejudicando um advogado paraibano que ocupava a vaga reservada a pessoas com deficiência e abriu uma crise com potencial de desgaste nacional.

O caso envolve o advogado paraibano Marko Venício dos Santos Batista, que havia sido incluído na lista de nomeações do concurso público realizado em 2022 para a Procuradoria do Recife. Ele concorria pela cota destinada a pessoas com deficiência e aguardava a nomeação quando foi surpreendido pela exclusão de seu nome da lista final. A vaga acabou destinada a Lucas Vieira Silva, que inicialmente havia disputado o concurso na ampla concorrência.

Ao comentar o episódio, Marko Venício demonstrou frustração e indignação com a decisão da prefeitura. “Bagunçou todas as minhas expectativas. Me senti muito surpreso, na expectativa de algo diferente”, afirmou o advogado, que diz ter sido diretamente prejudicado por uma mudança de regras ocorrida quando o concurso já estava encerrado.

Lucas Vieira Silva havia obtido apenas a 63ª colocação no certame e ficou fora do número de vagas previstas. Somente em maio de 2025, quase três anos após a realização do concurso, solicitou a mudança de modalidade para a condição de pessoa com deficiência, com base em um laudo médico que atestava Transtorno do Espectro Autista. A reclassificação foi homologada em dezembro, e a nomeação ocorreu dois dias depois.

A decisão contrariou parecer técnico da própria Procuradoria-Geral do Município do Recife, que se posicionou contra o pedido. O entendimento era de que a apresentação tardia do laudo violava o edital, comprometia a isonomia entre os candidatos e colocava em risco a segurança jurídica do certame. Apesar disso, o pedido foi acolhido sob o argumento de que a medida atenderia a um imperativo de concretização dos direitos fundamentais.

O aspecto que transformou um debate administrativo em escândalo político está no parentesco. Lucas Vieira Silva é filho da procuradora Maria Nilda Silva, integrante do Ministério Público de Contas de Pernambuco. A decisão da gestão municipal acabou beneficiando diretamente o filho de uma autoridade do sistema de controle, ao mesmo tempo em que retirou a vaga de um candidato que já aguardava nomeação dentro das regras originais do concurso.

O episódio recai diretamente sobre o prefeito João Campos, responsável final pelas nomeações. João construiu sua popularidade com forte presença nas redes sociais, discurso moderno e imagem de gestor eficiente. Atualmente, figura como o prefeito mais bem avaliado entre as capitais brasileiras e é apontado como favorito na disputa pelo governo de Pernambuco, à frente da atual governadora Raquel Lyra.

É justamente por isso que o caso tende a produzir efeitos políticos relevantes. A força de João Campos está fortemente associada à sua imagem pública e à aprovação digital. Situações que envolvem favorecimento, flexibilização de regras e quebra de isonomia costumam ter alto potencial de desgaste, sobretudo quando viralizam nas redes sociais, ambiente onde o prefeito construiu boa parte de seu capital político.

A exclusão de um advogado paraibano para abrir espaço a um candidato com vínculos familiares no sistema de poder reforça uma narrativa sensível para qualquer gestor público: a de que regras podem ser alteradas conforme o sobrenome do beneficiado. Mesmo que a decisão venha a ser defendida juridicamente, o impacto político já se mostra difícil de conter.

O caso ultrapassa o campo administrativo e entra no debate público. Para João Campos, trata-se de um escorrego perigoso em um momento de ascensão política. Para o candidato prejudicado, representa a perda concreta de um direito conquistado dentro das regras do edital. E para a sociedade, levanta dúvidas sobre até que ponto a popularidade pode servir de escudo para decisões que ferem princípios básicos de igualdade e justiça em concursos públicos.

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