A Paraíba viveu, nesta quinta-feira, um daqueles momentos que entram para a história política do estado. Após a posse na Assembleia Legislativa, o novo governador Lucas Ribeiro recebeu a faixa em frente ao Palácio da Redenção das mãos do agora ex-governador João Azevêdo, encerrando um ciclo de dois mandatos e abrindo oficialmente outro.
Em um discurso curto, porém carregado de emoção, João Azevêdo agradeceu a oportunidade de governar o estado e demonstrou confiança no sucessor. Falou de um projeto coletivo, de resultados entregues e de um caminho que, segundo ele, não deve ser interrompido. A transição, marcada por gestos de respeito e continuidade, serviu de pano de fundo para a fala mais longa, detalhada e politicamente carregada de Lucas Ribeiro.
Logo no início, o novo governador deixou claro o tom do que pretende imprimir à sua gestão.
“A Paraíba não inicia apenas um novo capítulo, ela reafirma um caminho.”
A frase sintetiza a estratégia: continuidade com reforço de narrativa. Lucas não se apresenta como ruptura, mas como evolução de um modelo que, segundo ele, “rompeu com o atraso”.
“Só existe um caminho possível: seguir em frente, sempre. Porque este é um governo que rompeu com o atraso. Nós livramos a Paraíba dos maus hábitos.”
O recado, embora não cite nomes, carrega evidente peso político. Ao falar em “atraso” e “maus hábitos”, o novo governador posiciona seu campo como o da modernização e delimita, ainda que de forma indireta, o adversário no debate que já começa a ganhar forma no estado.
Legitimidade do legado
Ao mesmo tempo, Lucas faz questão de ancorar sua legitimidade no legado recebido.
“Eu assumo este governo com plena consciência do seu tamanho e das suas conquistas.”
E vai além ao elogiar João Azevêdo de maneira enfática, destacando o que chamou de “obsessão pelo respeito à coisa pública” e “devoção à gestão administrativa”. Em um dos trechos mais simbólicos, estabelece um contraste com práticas comuns na política brasileira:
“Enquanto muitos, prestes a deixar o cargo, tendem a fazer de tudo irresponsavelmente para sair bem na fita, mesmo que isso resulte em prejuízos administrativos, o senhor preferiu a austeridade e o foco nas entregas.”
Na sequência, Lucas reforça um conceito que busca marcar sua identidade política e pessoal:
“Lealdade não é obrigação, é caráter.”
A frase funciona como sinal interno de alinhamento, mas também como mensagem pública de posicionamento ético. De alguma forma, uma crítica direta a Cícero Lucena, que – na avaliação do grupo de João – “não foi exatamente um político leal”.
Ao assumir formalmente o comando do estado, ele adota um discurso de continuidade com aceleração.
“Eu sou o novo governador da Paraíba. E conduzirei esse estado na única direção que nos acostumamos a seguir: pra frente.”
Primeiras ações
O governador enumera programas e políticas que pretende fortalecer, citando iniciativas como o Tá na Mesa, o Pass Livre, o Conexão Mundo, a Patrulha Maria da Penha e o Opera Paraíba. A estratégia é clara: associar sua gestão a políticas já reconhecidas pela população e, ao mesmo tempo, prometer expansão e aprofundamento.
Lucas também sustenta o discurso econômico do governo com números e indicadores.
“A Paraíba que no passado era símbolo de pobreza, hoje é referência para todo o Brasil. Temos o maior crescimento do PIB no Nordeste, somos o estado mais competitivo da região e temos a menor taxa de desemprego.”
Entre as primeiras medidas anunciadas pelo novo governador, ganha destaque a criação de um parque sensorial estadual voltado para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O espaço, que deverá ser implantado na Granja Santana, nasce com a proposta de oferecer um ambiente estruturado para estímulos controlados, acolhimento e desenvolvimento, funcionando como referência de inclusão e ampliando a rede de atendimento no estado. A iniciativa integra uma política pública mais ampla, que pretende articular saúde, educação e assistência social para garantir suporte efetivo a crianças e adolescentes com autismo em todas as regiões da Paraíba.
Ele destaca ainda a capacidade de investimento do estado.
“Entramos em 2026 com recursos em caixa para honrar compromissos com obras e programas, enquanto muitos estados ainda enfrentam déficits bilionários. Conquistamos algo raro e valioso: credibilidade.”
Um dos momentos mais concretos do discurso foi o anúncio da primeira medida de governo: a criação de uma política pública integral para crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista.
“Vamos dar um próximo passo na inclusão. O autismo exige integração, saúde, educação, assistência. E essa política precisa chegar a todos os cantos.”
A proposta é apresentada como um pacto institucional amplo, envolvendo Assembleia, Judiciário, Ministério Público, Tribunal de Contas, prefeituras e sociedade civil.
Na segurança pública, o discurso ganha tom mais firme.
“Aqui, o crime não será mais rápido que o Estado. Vamos combater as facções criminosas com força e o rigor da lei. Porque segurança garante liberdade.”
Na educação, área em que ele reforça sua formação acadêmica, Lucas busca estabelecer conexão entre trajetória pessoal e compromisso de governo.
“Investir em educação é investir no futuro. É garantir novas oportunidades para os nossos jovens e melhores profissionais para o nosso estado.”
Ao longo do pronunciamento, ele constrói uma imagem baseada em juventude, preparo técnico, capacidade de diálogo e fé.
“Esperem de mim a energia da juventude, a firmeza de alguém que se preparou, a dedicação de quem é obstinado em fazer dar certo e a humildade de um coração temente a Deus.”
A religiosidade aparece desde o início, quando ele associa a data da posse a um simbolismo cristão de serviço, reforçando a ideia de missão.
Emoção ao falar da família
Mas é na parte final que o discurso ganha um tom mais íntimo e emocional, com um longo tributo à família – trecho que revela não apenas o lado pessoal do novo governador, mas também ajuda a construir sua narrativa pública.
Lucas começa pelo avô, Enivaldo Ribeiro, a quem atribui influência decisiva.
“Homem de 91 anos, de vida pública limpa, de trajetória honrada, próximo das pessoas. Foi com você que eu aprendi que política se faz com atitude.”
Em seguida, lembra da avó, Virgínia, destacando a força feminina como referência desde cedo.
“Exemplo de mulher que foi à luta, que desbravou caminhos e abriu portas para proteger quem estava sob seu cuidado.”
Ao falar da mãe, a senadora Daniela Ribeiro, o tom se torna ainda mais pessoal.
“A senhora tantas vezes ponderou caminhos mais leves para mim, menos expostos, menos duros. Mas compreendeu que, para mim, isso era mais do que opção, era chamado. Foi abrigo, foi esteio, foi força em todos os momentos.”
O pai, Celso, também é lembrado com referência bíblica, citando o ensinamento sobre educação dos filhos.
“Ensina o teu filho no caminho em que deve andar, e ele não se desviará dele.”
O novo governador também destaca os irmãos como companheiros de caminhada e pilares de apoio.

Mas é ao falar da esposa, Camila, que o discurso atinge um dos pontos mais marcantes.
“Mulher virtuosa, companheira de alma e de destino. A Paraíba aprendeu a admirar você. Mas eu conheço, desde a adolescência, a luz que há nos seus olhos, a coragem do seu coração e a paz da sua presença.”
Ele associa a figura da esposa à força das mulheres paraibanas e à construção familiar.
“Você me lembra todos os dias da grandeza das mulheres e da beleza da maternidade que nos concedeu, com Daniel e José, as maiores bênçãos das nossas vidas.”
Ao mencionar os filhos, Lucas fecha o ciclo emocional do discurso.
“Ser pai de vocês é o maior presente que Deus poderia me dar.”
A conclusão reforça a ideia de propósito e missão pública.
“Meu propósito é ser um em favor de tantos quantos precisarem de mim.”
Entre emoção, recados políticos, reafirmação de legado e construção de imagem pessoal, Lucas Ribeiro inicia o governo deixando clara a linha que pretende seguir: continuidade com intensificação, discurso de modernização, enfrentamento simbólico ao passado e forte apelo humano na construção da própria liderança.
