Desde a redemocratização, a Paraíba construiu uma das tradições mais ingratas da política brasileira: quase ninguém consegue se reeleger para o Senado. O cargo, que em tese deveria premiar quem já tem mandato, virou no estado uma espécie de cadeira instável, em que a regra é a troca e não a continuidade. Desde 1945, apenas três políticos conseguiram quebrar esse padrão: Rui Carneiro, Argemiro de Figueiredo e Humberto Lucena. Todo o resto ficou pelo caminho.
Esse histórico pesa como uma sombra sobre a eleição de 2026, quando senadores que hoje ocupam cadeira vão novamente ao julgamento das urnas. Na Paraíba, isso não é detalhe estatístico, é um dado político central. O eleitor paraibano, por razões que vão do desgaste natural do poder à dinâmica local de alianças, costuma preferir a renovação.
Os últimos ciclos eleitorais ajudam a entender por quê. Em 2022, com apenas uma vaga em disputa, a senadora Nilda Gondim, que havia assumido o mandato após a morte de José Maranhão, optou por não disputar a reeleição. O resultado foi a eleição de um nome que vinha da Câmara dos Deputados: Efraim Filho. Mais uma vez, alguém de fora ocupou o espaço.
Em 2018, o cenário parecia mais favorável aos veteranos, já que duas vagas estavam em jogo. Mesmo assim, houve renovação completa. Cássio Cunha Lima, então um dos políticos mais influentes do estado, tentou renovar o mandato e terminou apenas em terceiro lugar. Raimundo Lira, que ocupava uma das cadeiras, sequer conseguiu consolidar sua candidatura. As duas vagas ficaram com estreantes no Senado: Veneziano Vital do Rêgo e Daniella Ribeiro.
Quatro anos antes, em 2014, a vaga em disputa também não premiou quem já estava no circuito mais tradicional do Senado. Wilson Santiago tentou voltar à Casa, mas quem venceu foi José Maranhão, que retomou o mandato depois de um período fora.
Esse padrão ajuda a explicar por que a reeleição no Senado, na Paraíba, virou quase um mito político. Não basta ser conhecido, ter estrutura ou alianças. A engrenagem eleitoral do estado, por razões históricas e culturais, costuma empurrar o eleitor para o novo.
É nesse cenário que Veneziano Vital do Rêgo, hoje senador pelo MDB, tenta quebrar o tabu. Ele próprio reconhece que o peso da história existe, mas rejeita a ideia de que ela funcione como uma sentença.
Ao ser provocado sobre o fato de que senadores raramente se reelegem no estado, Veneziano afirmou que cada derrota do passado teve uma explicação própria. Para ele, não se trata de uma maldição, mas de circunstâncias políticas específicas de cada época. Segundo o senador, são outras composições, outras realidades, e não um destino inevitável.
Veneziano diz encarar a tentativa de reeleição com humildade e com os pés no chão, apostando na construção de alianças e na busca por novos votos de confiança. Para ele, o julgamento final não pertence aos políticos nem às estatísticas, mas ao eleitor paraibano, que decidirá se o mandato merece continuidade.
A pergunta que fica, às vésperas de mais um ciclo eleitoral, é se a Paraíba está disposta a contrariar sua própria tradição. A história mostra que isso é raro. A eleição de 2026 dirá se o enigma do Senado paraibano continua intacto ou se, desta vez, alguém finalmente conseguirá vencê-lo.