O Botafogo-PB está diante de uma pergunta incômoda, que já não pode ser tratada apenas como provocação de torcedor: por que um time capaz de dominar a primeira fase da Série C muda tanto quando chega a hora de decidir o acesso?
A derrota por 1 a 0 para o Floresta, no sábado, no Almeidão, deixou o Belo sem nenhum ponto após duas rodadas do quadrangular. Antes, havia perdido para o Santa Cruz. Enquanto isso, o próprio Santa Cruz venceu também o Maringá fora de casa, chegou aos seis pontos e disparou na liderança do grupo. O acesso do Botafogo ainda é matematicamente possível, mas a situação já ficou extremamente complicada.
O mais preocupante é que o filme parece repetido.
Em 2024 – e O Norte Online lembrou isso ontem – o Botafogo fez a melhor campanha da primeira fase no atual formato da Série C: 41 pontos em 19 partidas, com 12 vitórias, cinco empates e apenas duas derrotas. Chegou ao quadrangular como favorito e terminou a fase decisiva com apenas cinco pontos, longe do acesso.
Um fantasma incômodo
Dois anos depois, o fantasma reaparece. E talvez seja preciso procurar explicações além da escalação, do treinador ou do gramado.
A psicologia esportiva conhece um fenômeno chamado “choking under pressure” — algo próximo de “travar sob pressão”. Ele ocorre quando atletas ou equipes que demonstraram capacidade durante uma competição apresentam queda acentuada justamente quando aumenta o peso emocional do resultado. Em esportes coletivos, pesquisadores estudam inclusive o chamado “colapso coletivo”, no qual fatores sociais, pressão e dinâmica do grupo ajudam a produzir uma queda de rendimento que não pode ser explicada apenas pela qualidade individual dos jogadores.
Não é possível afirmar, sem uma avaliação profissional do elenco, que esse seja o diagnóstico do Botafogo. Mas a repetição do comportamento chama atenção. Quanto mais perto fica o acesso, maior parece ser o peso carregado pelo time.
E existe outro componente que merece discussão: a postura construída em torno do projeto da SAF.
Fillipe Félix assumiu o protagonismo da gestão e hoje controla o projeto que adquiriu 90% da SAF. O contrato foi divulgado inicialmente com previsão de aportes de cerca de R$ 300 milhões ao longo de 15 anos. Em fevereiro deste ano, o próprio empresário afirmou que quase R$ 20 milhões já haviam sido investidos no clube.
Dinheiro, portanto, deixou de ser a explicação mais simples para os fracassos. O Botafogo tem estrutura, investimento e um elenco montado para disputar o acesso. O que ainda não conseguiu construir é um time que cresça quando a Série C chega ao momento em que realmente vale a promoção.
E talvez esteja aí um problema de ambiente. Em alguns momentos, a SAF transmite uma confiança que corre o risco de atravessar a fronteira entre autoestima e soberba. Reclamações sobre gramados, atritos e justificativas externas podem ser legítimos isoladamente, mas perdem força quando os resultados não aparecem. Para uma torcida cansada de esperar, chega uma hora em que não interessa mais descobrir de quem é a culpa. Interessa subir.
Até tu, Nenê?
A tensão explodiu contra o Floresta. Depois da derrota, houve revolta nas arquibancadas, com objetos lançados em direção ao gramado. Nenê, principal referência técnica do elenco, também foi alvo da cobrança e respondeu estirando o dedo para a arquibancada. Aos 45 anos, é justamente de um jogador com sua experiência que se espera serenidade quando a temperatura sobe. Qualquer confronto com a arquibancada apenas aumenta uma pressão que o time já demonstra enorme dificuldade para administrar.
O problema do Botafogo, portanto, talvez seja maior do que perder dois jogos. É a sensação de que o clube ainda não aprendeu a disputar o momento decisivo.
Nos últimos dez anos, o Belo chegou ao quadrangular do acesso em 2016, 2018, 2021, 2023, 2024 e agora em 2026. São sucessivas oportunidades e o mesmo objetivo escapando. O dinheiro da SAF mudou a estrutura e aumentou a expectativa. Ainda não conseguiu mudar a história.
Restam quatro partidas. Há pontos suficientes para uma reação e o futebol já produziu viradas muito mais improváveis. Mas o Botafogo terá de vencer primeiro um adversário que não aparece na tabela: o medo de repetir o próprio passado.
Porque, se acontecer novamente, ficará difícil chamar de coincidência.
O Botafogo terá de explicar por que consegue ser grande durante meses e encolhe justamente quando chega a hora de subir.

