Acostumado a exibir a maior bancada da Câmara Federal, o maior fundo partidário do país e uma musculatura eleitoral construída a partir do bolsonarismo, o PL entrou na reta final da campanha de 2026 enfrentando um cenário bem mais complicado do que imaginava.
A própria direção nacional já começou a recalcular expectativas. O presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, que sonhava com uma bancada de 120 deputados federais, agora admite uma meta mais modesta, embora ainda expressiva, de 110 parlamentaresy.
Os problemas se acumulam em várias frentes.
O primeiro deles é a sucessão de desgastes envolvendo figuras que simbolizaram o crescimento do partido. A prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, as cassações de Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli e Alexandre Ramagem, além das investigações que atingem lideranças importantes da legenda, criaram um ambiente de incerteza que não existia em 2022.
No Rio de Janeiro, um dos principais redutos bolsonaristas do país, os problemas judiciais envolvendo o ex-governador Cláudio Castro embaralharam completamente a articulação eleitoral da direita.
Em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do Brasil, o PL enfrenta dificuldades para montar um palanque competitivo para a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. A menos de quatro meses da eleição, o partido ainda busca uma composição capaz de dar sustentação ao projeto nacional.
Na Bahia, em Pernambuco e no Ceará, a situação também está longe do ideal. O partido apoia candidaturas de outras legendas, mas sem conseguir assegurar uma adesão integral ao projeto bolsonarista.
Em São Paulo, maior colégio eleitoral do país e estado onde o PL fez 17 deputados federais na última eleição, o cenário também mudou. A legenda perdeu seus principais puxadores de voto — Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli e Ricardo Salles — e tenta reorganizar sua estratégia eleitoral.
Como se não bastasse, o presidenciável Flávio Bolsonaro também enfrenta turbulências próprias. A repercussão negativa do caso envolvendo pedidos de recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro passou a ser apontada por analistas como um fator de desgaste especialmente junto ao eleitorado mais moderado, justamente aquele que pode decidir uma eleição nacional.
Há ainda outro ingrediente relevante: a participação discreta de Michelle Bolsonaro. Esperava-se que a ex-primeira-dama percorresse o país impulsionando candidaturas estaduais, mas sua presença na campanha tem sido muito menor do que o planejado inicialmente.
Na Paraíba, situação é diferente
Se o PL nacional sofre para encontrar palanques em estados estratégicos, a Paraíba não aparece entre as preocupações da direção nacional.
Por aqui, a candidatura do senador Efraim Filho ao Governo do Estado vem sendo construída há mais de um ano. O marco político dessa aproximação ocorreu ainda quando Efraim estava filiado ao União Brasil, durante uma reunião pública em João Pessoa com Michelle Bolsonaro.
Naquele encontro, ficou claro que o senador seria o principal representante do projeto bolsonarista na disputa estadual.
A formalização veio este ano, quando Efraim ingressou no PL em um evento de grande repercussão que contou com a presença do senador Flávio Bolsonaro na capital paraibana.
Sob esse aspecto, a Paraíba oferece ao partido exatamente aquilo que falta em vários estados: um candidato definido, um palanque estruturado e uma linha política claramente alinhada ao projeto nacional.
Mas há uma diferença curiosa entre o que o PL nacional enxerga e o que parte de suas lideranças paraibanas costuma admitir publicamente.
Enquanto a direção nacional reconhece dificuldades, reduz projeções e busca alternativas para enfrentar a turbulência, os principais nomes do partido na Paraíba frequentemente tratam os problemas como episódios sem maior relevância.
O próprio Efraim Filho, o ex-ministro Marcelo Queiroga, pré-candidato ao Senado, o deputado federal Cabo Gilberto Silva e o deputado estadual Walber Virgulino costumam minimizar os desgastes envolvendo Flávio Bolsonaro ou a própria situação nacional da legenda.
A postura contrasta com a realidade observada dentro do próprio PL. Afinal, se Valdemar Costa Neto decidiu reduzir expectativas, se a legenda enfrenta dificuldades para formar palanques em estados estratégicos e se lideranças nacionais admitem preocupação com os efeitos eleitorais das recentes crises, é porque o problema existe.
Ignorá-lo pode ser uma estratégia de discurso. Mas certamente não é a estratégia adotada hoje pela direção nacional do partido.