João Pessoa, quarta-feira, 16 de setembro de 2026
PL da dosimetria abre nova queda de braço entre Câmara e Senado
14/12/2025 05:23
Redação ON Reprodução

A tramitação do chamado PL da dosimetria abriu uma nova frente de tensão entre a Câmara dos Deputados e o Senado Federal, escancarando divergências que vão além do mérito jurídico e alcançam o campo político. O projeto, aprovado pelos deputados, chegou ao Senado cercado de resistências, sobretudo na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde já provoca reações críticas.

No centro do embate está o alcance real do texto. Para parlamentares e técnicos do Senado, o projeto não se limita aos condenados pelos atos de 8 de Janeiro, como sustentam seus defensores na Câmara. A avaliação predominante na CCJ é que o texto tem caráter amplo e pode provocar efeitos automáticos sobre a progressão de regime e a revisão de penas em diferentes tipos de crimes.

O presidente da CCJ do Senado, Otto Alencar (PSD-BA), tem adotado postura cautelosa. Diante das controvérsias, solicitou um estudo detalhado à assessoria jurídica da comissão, que será apresentado na próxima semana. A análise preliminar aponta que, embora o projeto não crie novos tipos penais nem revogue crimes existentes, seu desenho genérico pode abrir margem para reinterpretações na execução penal.

Um dos pontos que mais incomodam os senadores é o risco de impacto indireto sobre condenações por crimes graves. Técnicos da CCJ alertam que, ao tratar de critérios de dosimetria e progressão de regime de forma abstrata, o texto pode beneficiar um universo amplo de condenados, incluindo crimes como corrupção, delitos sexuais e crimes contra vulneráveis, todos já submetidos a regras específicas no sistema penal.

Na Câmara, aliados do presidente Hugo Motta (Republicanos-PB) reagem às críticas e tentam conter o desgaste. A avaliação é de que o Senado estaria ampliando artificialmente o alcance do projeto para frear sua tramitação. Deputados sustentam que o PL não altera percentuais de progressão já previstos em lei e não mexe em dispositivos voltados a crimes hediondos ou praticados por organizações criminosas.

O impasse evidencia mais do que uma divergência técnica. Trata-se de uma disputa política clássica entre as duas Casas, em que o Senado busca reassumir protagonismo e impor limites ao ritmo acelerado de votações da Câmara. Nos bastidores, a leitura é que o PL da dosimetria virou símbolo de um conflito maior sobre quem dita a agenda penal do país.

Com o parecer técnico em mãos, a CCJ do Senado deverá decidir se impõe mudanças ao texto ou se devolve o projeto à Câmara, o que prolongaria o embate. Até lá, o clima é de desconfiança mútua e articulações intensas, sinalizando que a queda de braço institucional está longe de um desfecho rápido.

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