As sucessivas conversas entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump não foram suficientes para evitar mais um duro golpe comercial contra o Brasil. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) anunciou nesta segunda-feira (1º) a proposta de uma tarifa geral de 25% sobre produtos brasileiros, medida que pode provocar impactos bilionários nas exportações nacionais.
E um dos alvos mais curiosos da ofensiva americana é justamente o Pix, sistema de pagamentos criado pelo Banco Central e considerado um dos maiores casos de sucesso da modernização financeira brasileira.
No documento divulgado pelo governo americano, o Pix aparece como um dos fatores que estariam prejudicando empresas dos Estados Unidos que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico. Na prática, os americanos alegam que o sistema brasileiro teria criado uma desvantagem competitiva para companhias privadas do setor financeiro e de meios de pagamento.
A inclusão do Pix na lista chama atenção porque o sistema se consolidou justamente por oferecer transferências instantâneas, gratuitas para pessoas físicas e com custos reduzidos para empresas, reduzindo a dependência de intermediários tradicionais e transformando profundamente o mercado financeiro brasileiro.
Outros argumentos
Mas o Pix está longe de ser a única queixa apresentada pelos Estados Unidos.
O relatório do USTR afirma que o Brasil mantém práticas consideradas “injustas” ou “restritivas” ao comércio americano. Entre elas aparecem decisões do Supremo Tribunal Federal relacionadas à remoção de conteúdos em redes sociais e aplicação de multas às plataformas digitais que descumprem determinações judiciais.
O governo americano também critica supostas falhas na proteção à propriedade intelectual, o combate insuficiente à falsificação de produtos, o tratamento tarifário concedido pelo Brasil a países como México e Índia e as condições de acesso ao mercado brasileiro de etanol.
Até mesmo o desmatamento ilegal entrou na lista de justificativas. Segundo os americanos, a persistência desse problema gera distorções econômicas e afeta a competitividade de determinados setores.
O anúncio ocorre após meses de negociações entre os dois países. O próprio representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, reconheceu que houve diversas reuniões entre integrantes do governo Trump e do governo Lula, mas admitiu que não houve consenso sobre os pontos investigados.
A proposta ainda passará por audiência pública marcada para 6 de julho. Pela legislação americana, as chamadas medidas corretivas podem entrar em vigor até 15 de julho, caso recebam o aval final da Casa Branca.
Para especialistas em comércio exterior, a medida representa mais um capítulo da crescente tensão comercial entre Washington e Brasília. E o fato de o Pix aparecer entre os argumentos reforça a percepção de que a disputa já não envolve apenas tarifas e produtos agrícolas, mas também tecnologia, serviços financeiros e soberania regulatória.
Se a decisão for confirmada por Donald Trump, o Brasil poderá enfrentar uma das mais amplas barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos nos últimos anos, com reflexos diretos sobre exportações, investimentos e geração de empregos.