O cancelamento dos passaportes diplomáticos de ex-deputados brasileiros que se encontram nos Estados Unidos vai muito além de uma medida administrativa da Câmara dos Deputados. A decisão produz efeitos diretos sobre o status migratório, a proteção legal e, em alguns casos, pode abrir caminho para prisão e extradição.
A Câmara decidiu invalidar os passaportes diplomáticos de Eduardo Bolsonaro e Alexandre Ramagem após a cassação de seus mandatos. Pelo regimento interno, a perda do cargo implica automaticamente a perda da prerrogativa de portar esse tipo de documento. Com isso, ambos deixam de ser reconhecidos como autoridades oficiais do Estado brasileiro.
O impacto imediato é migratório. O passaporte diplomático normalmente está associado a vistos especiais concedidos pelas autoridades americanas. Com o cancelamento do documento, esses vistos tendem a perder a validade. Para permanecer legalmente nos Estados Unidos, os ex-parlamentares precisariam solicitar outro tipo de visto, como turismo, trabalho ou algum status humanitário. Caso não façam essa transição dentro do prazo estabelecido pelas autoridades americanas, passam a correr o risco de serem considerados imigrantes em situação irregular, o que pode resultar em processos de deportação.
No caso de Alexandre Ramagem, a situação é juridicamente mais grave. Ele foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a mais de 16 anos de prisão por envolvimento na tentativa de golpe de Estado e é considerado foragido da Justiça brasileira. Com a cassação do mandato e a perda do passaporte diplomático, o caminho para a cooperação internacional fica mais curto. O STF já autorizou a formalização de pedido de extradição com base no tratado existente entre Brasil e Estados Unidos. Se esse pedido for acolhido pelas autoridades americanas, Ramagem pode ser preso em solo americano e enviado de volta ao Brasil para cumprimento da pena. A inclusão de seus dados em sistemas de cooperação policial internacional também facilita a localização e eventual detenção.
Eduardo Bolsonaro, por sua vez, teve o mandato cassado por excesso de faltas, após permanecer nos Estados Unidos desde fevereiro deste ano. Diferentemente de Ramagem, ele não possui condenação criminal, o que reduz o risco imediato de extradição. Ainda assim, enfrenta dificuldades práticas. Sem o passaporte diplomático, ele dependeria da emissão de um passaporte comum para regularizar sua situação, algo que ele próprio afirma temer que não ocorra em razão de decisões judiciais ou administrativas no Brasil.
Eduardo chegou a mencionar publicamente a possibilidade de solicitar um chamado “passaporte de apátrida”. Do ponto de vista jurídico, essa alternativa é considerada improvável. O documento é destinado a pessoas que não têm nacionalidade reconhecida por nenhum país, o que não é o caso de um cidadão brasileiro que mantém sua nacionalidade ativa.
Outra alternativa possível para ambos é o pedido de asilo político nos Estados Unidos. Caso o pedido seja aceito para análise, eles podem permanecer no país enquanto o processo tramita. No entanto, o asilo não é automático nem garantido. Autoridades americanas costumam rejeitar pedidos quando há condenações criminais definitivas ou quando os fatos alegados não se enquadram como perseguição política, mas sim como responsabilização por crimes comuns.
Em resumo, a perda do passaporte diplomático retira proteção institucional, fragiliza a permanência nos Estados Unidos e, no caso mais extremo, pode levar à prisão e extradição. O que parecia apenas um gesto burocrático da Câmara transforma-se, na prática, em um divisor de águas na situação jurídica e pessoal desses ex-deputados fora do país.

