Quando o Centro Universitário de João Pessoa (Unipê) nasceu, na década de 1970, a Paraíba vivia um cenário de absoluto afunilamento no acesso ao ensino superior. Ao se consolidar como a primeira instituição privada do estado, a universidade não apenas fixou a inteligência paraibana em sua própria terra, mas moldou as estruturas dos tribunais, hospitais e centros de tomada de decisão do Nordeste. Hoje, movimentando uma comunidade acadêmica de quase 20 mil alunos, o Unipê transcendeu o papel de sala de aula: tornou-se um polo de efervescência científica.
É exatamente nesse ecossistema de excelência que floresce uma das iniciativas mais vigorosas da pesquisa paraibana contemporânea: o Grupo de Pesquisa Linguagem, Educação, Filosofia e Direito (GPLEFD).
Da gênese humanística à fronteira do Direito

A trajetória do grupo confunde-se com a busca incessante por quebrar as barreiras que isolam o conhecimento. Tudo começou em 3 de agosto de 2009. A idealizadora e força motriz por trás do projeto, a professora Hélcia Macedo de Carvalho Diniz e Silva, vislumbrou a necessidade de criar um espaço que não se contentasse com respostas puramente técnicas.
Inicialmente batizado de AICLEH (A Interdisciplinaridade Concentrada na Linguagem e Educação Humanística), o grupo espelhava a própria bagagem acadêmica de sua fundadora, que transita com fluidez entre as Letras, a Filosofia e a Educação. Desde o início, o foco foi tirar o conhecimento dos muros universitários. Um exemplo marcante dessa filosofia foram as intervenções urbanas no histórico Pavilhão do Chá, no Centro de João Pessoa, onde o grupo passou a celebrar o Dia Mundial da Filosofia da UNESCO, aproximando o pensamento crítico da cidadania e do povo.
Após um hiato necessário de quatro anos – período em que a professora Hélcia se dedicou ao seu doutoramento em Filosofia pela prestigiada PUC-Rio -, o grupo retornou com oxigênio renovado e uma nova missão.
Em 2015, ao assumir as disciplinas de Linguagem Jurídica, Metodologia e Filosofia no tradicional Curso de Direito do Unipê, a pesquisadora percebeu que as ciências jurídicas precisavam urgentemente desse olhar humanitário e transversal. Nascia ali, oficialmente, o GPLEFD.
“A nova nomenclatura não foi apenas uma adequação burocrática, mas a consolidação de uma identidade onde a Linguagem, a Educação, a Filosofia e o Direito compartilham o mesmo DNA formativo.”

Rigor seletivo e produção de impacto
Hoje, fazer parte do GPLEFD é um selo de distinção acadêmica disputadíssimo. O processo seletivo semestral chega a registrar uma concorrência de quatro candidatos por vaga (uma média de 120 inscritos para apenas 30 cadeiras disponíveis). O grupo reserva estrategicamente 10 vagas para calouros do primeiro período que demonstram alta proficiência em língua portuguesa, capturando talentos desde o primeiro dia de faculdade, enquanto as outras 20 vagas são destinadas a veteranos e mestrandos de comprovada excelência.
O resultado desse rigor se reflete em uma produção intelectual efervescente, que inclui e-books de destaque, como o celebrado História de almas em vida; o cotidiano acadêmico em biografias, obra que resgatou a trajetória inspiradora de 20 docentes dedicados à educação brasileira.
Entrando em 2026, o grupo foca suas lentes sobre as fraturas e debates mais urgentes da sociedade contemporânea. É uma academia viva, que mexe com as estruturas do presente.
Como amostra do vigor crítico gerado no interior do GPLEFD, publicamos a seguir, na íntegra, o ensaio do pesquisador e graduando em Direito, Wéllysson Igor Gomes Santos, que cruza a filosofia de Foucault e Bakhtin com a cultura pop e o debate político atual no Brasil.
O Formigueiro e a PEC: “Vida de Inseto” ainda reflete o Brasil de 2026

- Por Wéllysson Igor Gomes Santos
Quem assistiu à animação Vida de Inseto (1998) em sua infância dificilmente imaginaria que, quase três décadas depois, as desventuras da formiga Flik serviriam como uma lente tão nítida para enxergar o Brasil contemporâneo. No centro do debate público em 2026, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa o fim da escala de trabalho 6×1 não é apenas uma questão de números ou produtividade; é uma disputa sobre o tempo, a dignidade e a própria arquitetônica da vida.
No filme da Pixar, a colônia de formigas vive sob um regime de “corpos dóceis” — termo que o filósofo Michel Foucault usaria para descrever sujeitos cuja força vital é inteiramente sequestrada pela disciplina da produção. Ali, não há “tempo de vida”, apenas “tempo de colheita”. Essa dinâmica é o espelho fiel da escala 6×1: uma jornada que comprime a existência humana em um único dia de folga, onde o descanso serve apenas como a manutenção biológica necessária para que o indivíduo retorne ao posto de trabalho no dia seguinte.
A resistência à PEC, muitas vezes fundamentada em discursos catastróficos, assemelha-se ao pânico dos vilões gafanhotos de Hopper diante das máquinas inventadas por Flik. A inovação e a tecnologia, que deveriam servir para emancipar o trabalhador e reduzir o esforço humano, são vistas como ameaças à ordem estabelecida. O sistema parece preferir o controle sobre uma massa exausta à eficiência de um formigueiro consciente.
Contudo, a grande lição de Vida de Inseto surge das margens. A “Trupe do Circo” — um grupo de artistas marginalizados e excluídos da métrica de produtividade tradicional — é quem traz a linguagem necessária para a ruptura. Através do riso e da encenação, eles instauram o que Mikhail Bakhtin chamaria de “polifonia”: o momento em que o grão deixa de ser o único signo da vida e o trabalhador passa a falar com sua própria voz.
A união das formigas no clímax do filme revela uma verdade matemática e política: “Eles são poucos, e nós somos muitos”. O debate sobre o fim da escala 6×1 no Brasil de 2026 é o nosso “pássaro mecânico”. É o instrumento que permite ao trabalhador enxergar além do formigueiro, reivindicando não apenas o pão da sobrevivência, mas o tempo da cultura, do afeto e da cidadania.
O que está em jogo na Assembleia Legislativa ou no Congresso Nacional não é apenas uma mudança de jornada; é a decisão de se continuaremos sendo um país que gerencia a exaustão ou se, finalmente, daremos o passo para sermos uma sociedade que valoriza a vida. Afinal, como Flik descobriu há 28 anos, as formigas não servem aos gafanhotos. E o povo brasileiro não deveria ser escravo do calendário.
- Wéllysson Igor Gomes Santos – Pesquisador do Grupo de Pesquisa Linguagens, Educação, Filosofia e Direito (GPLEFD/UNIPÊ) – Graduando em Direito pela UNIPÊ – Membro Efetivo da ASLAC (Academia Sapeense de Letras, Arte e Cultura).