Na largada da última edição da Corrida Internacional de São Silvestre, em 31 de dezembro, entre mais de 50 mil corredores espremidos na Avenida Paulista, um professor pernambucano de educação física puxou conversa com o senhor ao lado. A pergunta foi simples, quase automática: o senhor vai correr? A resposta veio com naturalidade, sem alarde, como se aquilo fosse apenas mais uma manhã qualquer. E, para aquele homem, talvez fosse mesmo.
O professor era Marcelus Almeida, da Universidade Federal de Pernambuco. O senhor, Décio Castro. Eles conversaram enquanto a largada atrasava alguns minutos. Marcelus não imaginava, mas estava ao lado de uma figura histórica do esporte brasileiro, um homem que atravessa gerações correndo e que carrega a memória viva da prova mais tradicional do país.
Décio correu sua primeira São Silvestre em 1953. Mais de sete décadas depois, como tantas vezes, voltou às ruas de São Paulo com a mesma serenidade de quem atravessa um quarteirão conhecido. Aos 88 anos, não apenas alinhou na largada: seguiu adiante, em ritmo próprio, firme, constante.
Os dois saíram juntos. Marcelus, 66 anos, manteve o passo, observando com curiosidade aquele senhor de movimentos seguros. Em determinado momento, o joelho reclamou. O professor diminuiu o ritmo, caminhou em alguns trechos, voltou a correr quando deu. Quando percebeu, havia perdido Décio de vista. Concluiu a prova em pouco mais de duas horas. O outro corredor, quase centenário, simplesmente desapareceu na multidão. Até hoje, Marcelus não sabe o tempo de Décio nem em que ponto ele terminou. Sabe apenas que foi deixado para trás por alguém que desafia o calendário.
Emil Zatopek, a grande inspiração
A explicação para essa resistência atravessa o tempo e remonta justamente a 1953, quando a São Silvestre recebeu um dos maiores nomes da história da corrida mundial: o tcheco Emil Zatopek. Restaram poucos registros visuais daquela noite. Fotos em preto e branco mostram o atleta antes da largada e depois, deixando rivais para trás. Foi naquela prova que Zatopek venceu e, sem saber, plantou uma semente que germinaria por décadas.
Décio estava lá. Jovem, ousado, acreditou que poderia disputar de igual para igual com aquele fenômeno olímpico. Não conseguiu acompanhar até o fim, mas chegou. E aquele encontro foi decisivo. Zatopek se transformou na grande inspiração para uma vida inteira dedicada à corrida. Desde então, Décio nunca mais parou.
Ao longo dessas décadas, disputou mais de 100 maratonas. Conquistou troféus, medalhas e reconhecimento. Hoje, o cenário se repete de outra forma. Cercado por corredores muito mais jovens, Décio chama atenção não apenas pela idade, mas pela postura diante da vida. Sua longevidade não está associada a segredos mirabolantes ou fórmulas milagrosas, mas a uma relação simples com o tempo, com o corpo e com as pessoas.
Na São Silvestre mais recente, Marcelus Almeida saiu para correr e voltou com uma história improvável. Descobriu depois que esteve lado a lado com alguém que corre desde antes de muita gente nascer. Um homem que foi inspirado por um mito do atletismo em 1953 e que, mais de 70 anos depois, segue inspirando desconhecidos na largada.
Décio Castro continua ali, desafiando o relógio como sempre fez. Um passo de cada vez.

