Em 1958, um garoto de 17 anos chamado Edson Arantes do Nascimento surpreendeu o mundo. Em quatro jogos, Pelé marcou seis gols — três na semifinal e dois na final —, garantindo ao Brasil o primeiro título mundial de sua história. Mas, antes do brilho eterno, um nome quase o tirou do torneio: o psicólogo João Carvalhaes, que, segundo a BBC Brasil (por John Nassoori), recomendou formalmente que o jovem não fosse escalado.
Naquela época, ao contrário dos profissionais de hoje — que atuam mais no suporte à saúde mental —, Carvalhaes tinha poder concreto sobre a escalação. Seus testes psicotécnicos classificaram Pelé como “infantil” e carente de “espírito de luta”. O técnico Vicente Feola, porém, ignorou a orientação: “Se o joelho do Pelé está bom, ele joga!”, respondeu. O resto é história. O próprio Rei, anos depois, ironizou os métodos do psicólogo, dizendo que “ou era algo bem à frente do seu tempo no futebol, ou não passava de invencionice — talvez as duas coisas”, relata a BBC Brasil.
Um país traumatizado e um pioneiro visionário
O Brasil dos anos 1950 estava desesperado por ajuda. A derrota para o Uruguai na final de 1950, no Maracanã, e a humilhante “Batalha de Berna” em 1954 deixaram marcas profundas na seleção. Foi nesse cenário que Carvalhaes, até então um psicólogo pouco conhecido, foi contratado pelo São Paulo em 1957, após criar laboratórios de psicologia na Federação Paulista de Futebol — estruturas que só surgiriam na Europa no final dos anos 1980, conforme aponta a BBC Brasil.
Na seleção para a Copa da Suécia, ele aplicou testes inéditos para a época, como o “Teste Alfa do Exército” (para avaliar inteligência) e o psicodiagnóstico miocinético (PMK), que analisava o temperamento dos jogadores a partir de desenhos livres. Os resultados vazaram para a imprensa, causando alvoroço e insinuações de que Garrincha também não jogaria, mas ambos foram confirmados.
Legado e resistência
Apesar do sucesso em campo, Carvalhaes foi ignorado pela CBD após a conquista. Segundo a BBC Brasil, ele morreu em 1976, aos 58 anos, magoado com a falta de reconhecimento nacional, mas já tendo recebido atenção de revistas internacionais como a Sports Illustrated.
Seu legado, porém, é inegável. A psicologia esportiva demorou a se firmar no futebol de elite, mas seus métodos pioneiros abriram caminho. Ainda conforme a BBC Brasil, a própria CBF só contratou uma psicóloga fixa para a seleção masculina em 2024, visando a Copa de 2026 — um sinal de que, mesmo com o pioneirismo de Carvalhaes, a área ainda está em construção no futebol. Como disse o treinador Simon Clifford à reportagem: “A mente é o atleta. O corpo é simplesmente o meio”.
