A coletiva marcada pelo médico e pré-candidato a deputado federal Jhony Bezerra, no próximo dia 23, em Campina Grande, para anunciar seu novo posicionamento político após o rompimento com o governador João Azevêdo, joga luz sobre um fenômeno recorrente no tabuleiro eleitoral paraibano: a distância entre votações expressivas em momentos específicos e a consolidação de uma liderança política capaz de se sustentar ao longo do tempo.
O desempenho de Jhony no segundo turno da eleição municipal de Campina Grande, quando obteve quase 100 mil votos contra o atual prefeito Bruno Cunha Lima, foi interpretado, à época, como o surgimento de uma nova força política na Rainha da Borborema. O tempo, porém, tende a mostrar que nem toda grande votação se traduz automaticamente em musculatura política permanente.
Na política, especialmente em cenários de forte polarização ou desgaste de gestões, é comum que parte expressiva do eleitorado vote mais contra alguém do que a favor de um projeto específico. É o chamado voto de opinião ou voto de protesto, que pode inflar candidaturas circunstanciais sem, necessariamente, criar uma base orgânica de apoio que se mantenha em eleições seguintes.
Foi assim, em boa medida, em Campina Grande, onde o segundo turno se deu num ambiente de forte rejeição ao grupo político que estava no poder. O capital eleitoral construído naquele momento não pertence integralmente a um candidato, mas ao contexto da disputa.
Pedro Cunha Lima
A eleição de 2022 oferece um paralelo interessante. Pedro Cunha Lima foi ao segundo turno contra João Azevêdo e obteve mais de um milhão de votos, número que, isoladamente, projeta qualquer político ao patamar de protagonista estadual. Meses depois, a própria leitura interna do grupo político foi a de que aquele desempenho não significava, automaticamente, um capital político transferível para a eleição seguinte. Pedro, mesmo com lastro familiar e trajetória própria, recuou de projetos eleitorais imediatos, numa demonstração de que grandes votações também podem ser fruto de conjunturas específicas.
A política paraibana é pródiga em exemplos de candidaturas que “subiram como foguete” em uma eleição e não conseguiram manter o mesmo fôlego em disputas posteriores. O ex-deputado Toinho do Sopão, recordista de votos em 2010, virou símbolo de como uma votação expressiva, sem estrutura política consolidada, pode se dissipar rapidamente. Nilvan Ferreira, em João Pessoa, foi outro caso emblemático: desempenho forte em disputas majoritárias, mas dificuldades em transformar esse capital em mandatos duradouros. Walber Virgolino, por sua vez, mostrou como uma votação explosiva pode se estabilizar em um nicho específico, sem se traduzir em hegemonia política.
No caso de Jhony Bezerra, o anúncio de um novo alinhamento político após o rompimento com o governo estadual é um movimento legítimo dentro da dinâmica partidária. Mas ele também recoloca a discussão sobre até que ponto aquela votação de quase 100 mil votos em 2024 representa um patrimônio político próprio ou um retrato momentâneo de uma eleição municipal marcada por forte tensão local.
Méritos & méritos
Nada disso diminui os méritos eleitorais de quem consegue chegar a um segundo turno em cidades do porte de Campina Grande ou disputar o governo do Estado com mais de um milhão de votos. O que a experiência política ensina, porém, é que a urna, sozinha, não cria lideranças duráveis. Sem grupo, sem base organizada e sem uma narrativa consistente de longo prazo, votações impressionantes podem virar apenas fotografias de um momento específico da conjuntura. A política, como o tempo costuma provar, cobra menos o brilho do instante e mais a capacidade de se manter de pé quando o vento muda.
E, para fechar esse raciocínio sobre o perigo de se deslumbrar com votações monumentais, o caso de Aécio Neves em 2014 é o exemplo definitivo de como o “voto de ocasião” pode ser traiçoeiro. Ao conquistar mais de 51 milhões de votos no segundo turno contra Dilma Rousseff, Aécio saiu das urnas como o “dono” da oposição e o herdeiro natural do poder no Brasil. No entanto, o capital político que parecia indestrutível derreteu em tempo recorde. Hoje está reduzido a um deputado federal do baixo clero e sem protagonismo no cenário nacional.