quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
O personagem Lisca Doido em um Botafogo que ainda tateia no escuro
04/02/2026 10:08
Por Marcondes Brito Reprodução

A contratação de Luiz Carlos Cirne Lima de Lorenzi, gaúcho de Porto Alegre, 53 anos, pelo Botafogo-PB tem um peso simbólico que vai além da simples troca de treinador. O apelido que o acompanha há anos, Lisca Doido, acaba funcionando como metáfora para um clube que, desde que virou SAF, vem acumulando decisões que soam improvisadas.

A saída de Bernardo Franco não é um ponto fora da curva. É a quinta troca de treinador desde a implementação da SAF. Antes dele, passaram João Burse, Antônio Carlos Zago, Márcio Fernandes e Evaristo Piza. A sequência expõe instabilidade, falta de convicção e um planejamento que muda ao sabor do resultado do domingo.

A origem do apelido de Lisca ajuda a entender o personagem. Ele surgiu nos tempos de Juventude, que é chamado carinhosamente de “Pato Doido”. Em meio à campanha surpreendente (estava na Série D) que levou o clube à final do Campeonato Gaúcho contra o Internacional, Lisca protagonizou cenas de confronto com o craque D’Alessandro à beira do campo, o que fez a arquibancada adaptar o grito do Pato Doido para “Lisca Doido”. O nome pegou, virou marca e passou a acompanhá-lo por onde foi.

O personagem carismático sempre veio junto com boas histórias e também com atitudes consideradas, no mínimo, excêntricas. Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu em 2022, quando Lisca assumiu o Sport e, após apenas quatro jogos, aceitou um convite do Santos, rompendo o vínculo recém-assinado no Recife. Para muitos, aquela saída repentina sintetizou a “doidice” que o apelido sugere, mesmo quando a decisão envolvia um salto de patamar na carreira.

Apesar disso, de “doido” ele tem pouco no que diz respeito ao ofício. Lisca é um técnico experiente, com passagens memoráveis principalmente no Ceará e América-MG, e conhece bem o ambiente do futebol nordestino. Ao chegar ao Botafogo, resumiu o momento com franqueza ao dizer que ouviu de Felipe Félix o projeto do clube, sentiu que o Botafogo precisava dele e completou: “eu também preciso do Botafogo”.

Talvez aí esteja o ponto de encontro entre as duas partes. Um treinador em busca de retomada e um clube que ainda tenta se encontrar como SAF. Resta saber se, dessa vez, o Botafogo vai deixar de decidir “na doida” e, finalmente, bancar um projeto com um mínimo de continuidade. Porque, no fim das contas, improviso pode até render boas histórias, mas dificilmente constrói um time competitivo no longo prazo.

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