A frase do senador Efraim Filho, ao lamentar que Veneziano Vital do Rêgo tenha “escolhido o passado” ao se alinhar a Cícero Lucena, acabou abrindo uma brecha curiosa para uma leitura mais profunda do tabuleiro político da Paraíba. Sob outro ponto de vista, a disputa de 2026 parece menos uma escolha entre passado e futuro e mais a reafirmação de um passado que continua organizando o presente.
O pano de fundo dessa eleição está fortemente ligado a Campina Grande e a três personagens históricos da política paraibana cujos sobrenomes seguem orbitando o centro do poder. São eles: Elivaldo Ribeiro, ex-deputado federal, avô de Lucas Ribeiro, atual vice-governador e o candidato da chapa governista; Ronaldo Cunha Lima, que foi governador e senador, avô de Pedro Cunha Lima; e Vital do Rêgo, que foi presidente da OAB-PB e deputado federal, pai de Veneziano Vital do Rêgo e de Vital do Rêgo Filho, atual presidente do Tribunal de Contas da União.
Essas três trajetórias, que marcaram época na política paraibana, continuam projetando sombra longa sobre o cenário atual. Não se trata de desqualificar os herdeiros políticos, que têm vida pública própria, votos e trajetórias individuais. Mas é inegável que o capital simbólico, eleitoral e de redes de poder construído por essas figuras históricas ainda pesa, e muito, na conformação das alianças e dos conflitos de hoje.
Cícero
Mesmo Cícero Lucena, hoje o nome mais bem posicionado nas pesquisas de intenção de voto, acaba inserido nesse mesmo eixo campinense. A aproximação política com o grupo Cunha Lima – materializada no apoio de Pedro Cunha Lima e na possibilidade de ele compor a chapa como vice – cria uma ponte direta entre o projeto de Cícero e uma das mais tradicionais linhagens políticas de Campina Grande. Assim, ainda que Cícero seja um líder de João Pessoa, sua viabilidade eleitoral para 2026 passa, em grande medida, por esse aval vindo do interior.
A ironia é que até mesmo o discurso de ruptura com o “passado” acaba, na prática, atravessado por essas heranças. Efraim Filho, que não descende diretamente de nenhuma dessas três linhagens campinenses, tentou se aproximar de Veneziano Vital do Rêgo e não conseguiu. Em compensação, fechou politicamente com Bruno Cunha Lima, atual prefeito de Campina Grande, sobrinho-neto de Ronaldo Cunha Lima. Ou seja: mesmo quando se fala em “futuro”, os movimentos concretos continuam passando pelos mesmos troncos genealógicos do poder.
O resultado é um paradoxo revelador. A eleição de 2026, vendida por muitos como um embate entre projetos novos, está profundamente ancorada em estruturas políticas antigas, que se reinventam por meio de novas gerações, mas preservam vínculos, alianças e capitais herdados. Campina Grande, mais uma vez, aparece como epicentro simbólico e prático dessa engrenagem.
No fim das contas, a provocação de Efraim Filho revela menos sobre uma escolha entre passado e futuro e mais sobre como, na política paraibana, o futuro segue sendo negociado dentro de um passado que nunca deixou realmente de mandar.