sexta-feira, 24 de julho de 2026
O funil do poder: como a ausência de mulheres no governo da Paraíba reflete o cenário nacional
11/07/2026 05:28
Redação ON Reprodução

A poucos dias do início oficial das convenções partidárias para as eleições de 2026, os bastidores políticos da Paraíba desenham um cenário que expõe o tamanho do abismo da representatividade de gênero no estado. Até o momento, todas as pré-candidaturas postas para o Governo do Estado são encabeçadas por homens. O silêncio sobre nomes femininos na disputa majoritária estadual não é um fato isolado: ele dialoga diretamente com uma resistência histórica que se repete em nível nacional quando o assunto é o comando do Poder Executivo.

O espelho paraibano: um tabu que se mantém

Na Paraíba, o eleitorado é majoritariamente feminino, mas essa maioria numérica não se traduz em ocupação de poder no topo do Executivo estadual. Ao longo de sua história política, o estado nunca elegeu uma governadora. O cargo máximo já foi ocupado por mulheres de forma temporária ou na posição de vice — como no caso de Lígia Feliciano —, mas a cabeça da chapa vitoriosa sempre foi masculina.

Em pleitos recentes, a presença feminina nas urnas para o governo ficou restrita a candidaturas de partidos de esquerda com menor tempo de TV e recursos, como Adjany Simplício (PSOL) em 2022 e Rama Dantas (PSTU) em 2018. Para 2026, com o afunilamento das alianças em torno de nomes tradicionais, a Paraíba corre o risco de retroceder a 2014, quando nenhuma mulher figurou na urna para o cargo de governadora.

O reflexo nacional: o “fenômeno Dilma” e a barreira do planalto

Esse ecossistema paraibano encontra eco perfeito na Esplanada dos Ministérios. No plano federal, o Brasil vive uma aparente contradição. O país já teve diversas candidatas competitivas à Presidência da República desde a redemocratização — nomes como Marina Silva, Simone Tebet e Soraya Thronicke levantaram debates cruciais em campanhas recentes. No entanto, o topo do pódio só foi alcançado uma única vez.

Dilma Rousseff, eleita em 2010 e reeleita em 2014, permanece como a única mulher a governar o país. O fato de o Brasil ter tido apenas uma presidente em mais de 130 anos de República acende o mesmo alerta que a Paraíba enfrenta: por que, mesmo com mulheres protagonizando debates e liderando ministérios, a caneta do voto majoritário ainda é entregue, majoritariamente, aos homens?

Por que o executivo é mais difícil?

A explicação para esse fenômeno que une a Paraíba ao restante do Brasil passa pela própria estrutura das engrenagens partidárias. Cientistas políticos apontam que o sistema de cotas de gênero (que exige 30% de candidaturas femininas) oxigenou o Poder Legislativo, inflacionando a presença de deputadas e vereadoras. Porém, a regra não se aplica às eleições majoritárias (Governador, Prefeito e Presidente), onde há apenas uma vaga em disputa por chapa.

Na hora de decidir quem vai liderar essas chapas — e, consequentemente, quem vai controlar os maiores fundos eleitorais —, as cúpulas dos partidos, ainda controladas majoritariamente por homens, tendem a apostar em carreiras políticas tradicionais, muitas vezes ligadas a oligarquias familiares ou ao poder econômico já estabelecido.

Um desafio para a democracia de 2026

Ao ligar os pontos entre João Pessoa e Brasília, fica claro que a ausência de mulheres na disputa pelo Governo da Paraíba em 2026 não é falta de quadros qualificados, mas sim o resultado de um funil político que aperta justamente na hora de distribuir o poder real de mando.

Enquanto as convenções não se encerram, a fotografia do momento serve como um incômodo lembrete de que, tanto no cenário estadual quanto no nacional, a democracia brasileira ainda governa de costas para a maioria da sua população.

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