Há imagens que dispensam comentários. A de Flávio Bolsonaro, de sunga branca, faixa presidencial e pose de galã de propaganda de verão, é uma delas. A imagem, produzida por inteligência artificial e publicada pelo próprio candidato, viralizou às vésperas do lançamento de sua campanha presidencial. No dia seguinte, veio o palanque em Copacabana, com cerca de 9 mil pessoas — um público bastante modesto para quem tenta ocupar o lugar de herdeiro de uma máquina política que já levou multidões à mesma praia. (Novo Notícias)
O fenômeno por trás dela beira o ridículo: é a imagem de um candidato mais afeito ao espetáculo farsesco do que à Presidência da República, como se o mais alto posto da nação pudesse ser tratado como cenário de uma comédia política.
Mas talvez seja justamente aí que esteja o perigo. O ridículo chama atenção, provoca risos, ocupa as redes e, por alguns minutos, parece suficiente. Só que, por trás da caricatura, existe um fenômeno político muito menos engraçado.
A política brasileira aprendeu há algum tempo que não precisa apenas convencer. Precisa provocar. Medo, raiva, ressentimento, indignação. Quanto mais intenso o afeto, melhor. O importante é manter o eleitor mobilizado, de preferência contra alguém.
O ressentimento, tema que já discutimos em outro momento, continua sendo uma das matérias-primas dessa política. A sensação de perda, de abandono, de humilhação, de que alguém recebeu aquilo que deveria ser seu, pode ser transformada em força eleitoral. Mas o ressentimento, sozinho, não basta. Ele precisa de um endereço. Precisa de um culpado.
É aí que entra o medo. O adversário deixa de ser adversário e passa a ser inimigo. E inimigos, nessa lógica, não precisam ser convencidos. Precisam ser derrotados, silenciados ou, no limite, eliminados.
Vladimir Safatle vai além ao apontar a dessensibilização e a indiferença como elementos centrais dos novos fascismos. Não se trata apenas de produzir ódio. É preciso também produzir uma espécie de anestesia diante do sofrimento do outro. Quando a dor alheia deixa de nos afetar, a violência encontra um caminho muito mais fácil para se tornar aceitável.
É uma operação política assustadoramente simples: primeiro se escolhe quem deve ser temido; depois se ensina que não é preciso sentir muito por ele.
Aqui a psicanálise ajuda a iluminar uma questão que a política costuma esconder. A pulsão de morte, em Freud, não é uma explicação pronta para o fascismo. Mas permite pensar o que acontece quando a destrutividade deixa de ser apenas uma força psíquica e encontra uma forma política de expressão. O fascismo pode transformar destruição em valor e apresentar a eliminação do outro como afirmação da própria vida.
Não da vida de todos. Da vida de alguns.
É aí que a necropolítica de Achille Mbembe encontra o nosso problema: a vida não é protegida de maneira igual. Há vidas que o Estado se empenha em preservar e outras que podem ser abandonadas, expostas à violência ou simplesmente tratadas como vidas de segunda categoria.
No Brasil, isso não é exatamente uma novidade. A distância entre os territórios protegidos e os territórios onde a morte se tornou rotina é antiga. A pergunta incômoda, portanto, não é apenas se vivemos numa democracia, mas: democracia para quem?
E talvez seja aí que o neoliberalismo entre nessa história. Não como pai do fascismo, nem como explicação para tudo, mas como um ambiente que transforma o fracasso coletivo em culpa individual. Se cada um é responsável pelo próprio sucesso, quem não venceu precisa explicar por que não conseguiu.
Eliminam-se os periféricos que não cabem no perverso catecismo da meritocracia para que os ungidos por Deus possam continuar desfrutando dos prazeres da vida produzidos pelo suor daqueles que trabalham para eles.
É uma maneira bastante conveniente de organizar o mundo: quem está em cima merece; quem está embaixo falhou. E, assim, a desigualdade deixa de parecer uma violência e passa a parecer uma consequência natural da incompetência dos outros.
É nesse ponto que o fascismo encontra terreno fértil. Não é preciso convencer alguém de que o outro é um monstro. Basta convencê-lo de que o outro não merece o mesmo que ele.
Marilena Chaui e Safatle divergem sobre a genealogia do fascismo — totalitarismo, para ela; colonialismo, na leitura dele. Mas há algo que aproxima essas perspectivas: a violência política não nasce do nada. Ela se alimenta de sociedades acostumadas a estabelecer diferenças entre aqueles que devem ser protegidos e aqueles cuja existência pode ser tolerada, controlada ou sacrificada.
Talvez por isso a cena de Flávio Bolsonaro de sunga seja mais reveladora do que parece.
Não porque a sunga tenha qualquer importância política — felizmente não tem —, mas porque ela resume a transformação da política em espetáculo. A imagem artificial cria um candidato que parece personagem antes de parecer presidente. A campanha, por sua vez, recorre ao pai ausente, aos velhos símbolos, aos velhos inimigos e às velhas palavras de ordem. Em Copacabana, o candidato chegou a puxar o coro de “volta, Bolsonaro”. (Folha de S.Paulo)
Há algo de melancólico nessa tentativa de ressuscitar uma política cujo principal personagem já não pode ocupar o palanque. O herdeiro tenta vestir o figurino do pai, mas o tamanho da fantasia não parece caber nele.
Talvez seja essa a imagem mais precisa do momento: uma política que precisa fabricar a própria realidade porque a realidade já não basta.
A sunga branca pode provocar riso. E deve. O problema começa quando o riso serve para esconder aquilo que está por trás dela: o ressentimento transformado em política, o medo transformado em método, a indiferença transformada em proteção e a violência apresentada como defesa da vida.
REFERÊNCIAS
FOLHA DE S.PAULO. Flávio Bolsonaro volta às origens do clã e lança campanha em Copacabana. São Paulo, 16 ago. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/08/flavio-bolsonaro-volta-as-origens-do-cla-e-lancacampanha-em-copacabana.shtml. Acesso em: 18 ago. 2026.
NOVO NOTÍCIAS. [Referência citada no texto sobre a imagem de Flávio Bolsonaro e o ato em Copacabana]. [S. l.], 2026. Dados bibliográficos completos não constam no arquivo original.
CHAUI, Marilena. [Obra específica não identificada no arquivo original].
FREUD, Sigmund. [Obra específica não identificada no arquivo original].
MBEMBE, Achille. [Obra específica não identificada no arquivo original].
SAFATLE, Vladimir. [Obra específica não identificada no arquivo original].
*Mestre em Ciências Políticas
