A festa apoteótica da filiação de Cícero Lucena ao MDB não mexeu apenas com João Pessoa. Ela alterou, sobretudo, o tabuleiro da sucessão estadual na Paraíba. A segunda-feira (17) marcou a entrada definitiva do MDB no jogo de 2026, e o dia seguinte trouxe um movimento ainda mais significativo: o governador João Azevêdo decidiu agir rapidamente para mostrar que não aceitará indefinições, sombras nem neutralidades calculadas.
A reação foi direta. A pedido do governador, o vice-prefeito Léo Bezerra entregou a presidência do PSB em João Pessoa. E o que mais chamou atenção não foi a mudança em si, mas o alvo escolhido: Léo é um dos quadros de maior confiança de João Azevêdo e é apontado para assumir a prefeitura da capital na segunda metade do mandato. Mesmo assim, o governador abriu mão, de forma voluntária, de alguém historicamente fiel. E fez isso exatamente no dia seguinte ao evento monumental do MDB.
O gesto tem significado político claro. João decidiu mandar um recado para toda a base: quem quiser participar do projeto de 2026 precisa assumir posição agora. Não haverá espaço para figuras “em trânsito”, para apoios condicionados ou para discursos com duas vias. A reorganização começou, e começou com mão firme.
A nota divulgada por Léo Bezerra reforça essa leitura. É um texto sóbrio, educado e redondo — mas com um subtexto que não passa despercebido. Ele faz questão de lembrar que sempre caminhou ao lado de João Azevêdo em todos os movimentos partidários: acompanhou o governador quando ele deixou o PSB, acompanhou quando retornou e assumiu o comando do diretório municipal quando o partido precisou. Essa recapitulação funciona como um recado elegante, mas claro: a lealdade dele nunca foi colocada em dúvida. E, mesmo assim, foi afastado.
A frase “Recebo essa decisão com respeito e serenidade” encerra a nota de forma correta, mas não apaga a sensação de frustração. É uma postura de disciplina, de quem entende o momento político, mas que deixa no ar um incômodo natural diante de uma decisão dura.
Do ponto de vista do governador, o movimento é estratégico. Reorganiza a tropa, fortalece o palanque de Lucas Ribeiro, afasta qualquer ambiguidade e marca território logo após o MDB ocupar todos os holofotes. Mas também traz riscos: ao forçar a saída de Léo da presidência do PSB, João afasta um aliado importante para o segundo semestre de 2026, quando Léo assumirá a prefeitura de João Pessoa.
A Paraíba amanheceu percebendo que o jogo mudou. O MDB fez muito barulho, mas o PSB respondeu com precisão cirúrgica. João Azevêdo decidiu assumir o comando da narrativa e deixou claro que, daqui em diante, a sucessão estadual será disputada sem espaços para zonas cinzentas. Léo Bezerra, disciplinado, acatou. Mas sua nota mostra que as consequências políticas ainda serão sentidas.