João Pessoa, domingo, 8 de novembro de 2026
O desastre das entrevistas de Flávio Bolsonaro depois da fuga para os EUA
07/11/2026 18:19
Redação ON Reprodução

Quando chegou aos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se apresentou aos brasileiros, por carta, como o verdadeiro presidente eleito. Bastou sentar-se diante de um entrevistador para que aquela certeza encolhesse. À Folha de S.Paulo, o senador disse que nem ele nem Lula podem afirmar com absoluta segurança quem venceu a eleição. E, quando precisou explicar em que se baseava para contestar o resultado, deu a resposta que resume o desastre político de suas três entrevistas após a fuga do Brasil. “Não tenho provas e nem terei, porque é proibido investigar esse assunto.” A primeira parte da frase é uma admissão do próprio candidato. A segunda é falsa, como mostrou neste sábado (7) o UOL Confere.

O problema já aparecia na primeira entrevista, publicada pelo The New York Times na quinta-feira (5). Flávio negou ter recebido ajuda de qualquer governo para sair do Brasil, embora tivesse agradecido publicamente a Donald Trump e Javier Milei. O jornal americano apurou que um funcionário da Casa Branca providenciou o avião que levou o senador e a família a Miami. Quanto aos detalhes da operação, Flávio disse que levaria o segredo para o túmulo.

O que o Washington Post ouviu dos aliados

Na entrevista ao The Washington Post, publicada neste sábado, Flávio procurou dar à fuga uma explicação política. Afirmou que Trump está convencido de que o Brasil deixou de ser uma democracia plena. A avaliação sobre o que pensa o presidente americano foi feita pelo senador. Já a decisão que antecedeu sua saída do país tem motivo documentado. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, havia determinado a entrega dos passaportes no âmbito de uma investigação sobre suspeita de lavagem de dinheiro. Flávio deixou o Brasil descumprindo a ordem.

O contraponto mais duro da reportagem de Terrence McCoy veio de gente próxima ao próprio senador. Sob reserva, um assessor avaliou que fugir foi a pior decisão que Flávio poderia ter tomado se pretendia contestar o resultado. Outro disse ter ficado surpreso com o impulso do candidato. E Eduardo Bolsonaro revelou ao jornal que a equipe espalhou informações falsas sobre o paradeiro do irmão para despistar quem tentava reconstituir a viagem. O próprio Post estava entre os veículos que a equipe procurou enganar.

Havia também uma distância considerável entre o personagem da carta e o homem que recebeu o repórter num escritório compartilhado em Aventura, na Flórida. Dias antes, Flávio reivindicava a Presidência da República. Diante de McCoy, reconheceu que precisava regularizar sua situação migratória e ainda tinha de decidir o que faria da vida nos Estados Unidos.

A conta que Flávio deixou de fazer

Foi na entrevista à Folha, a primeira concedida a um veículo brasileiro desde a fuga, que a tese da fraude ganhou sua formulação mais explícita. Na conversa com o jornalista Glenn Greenwald, publicada na sexta-feira (6), Flávio sustentou que o crescimento de Lula entre os dois turnos era matematicamente impossível. Essa declaração deu origem à checagem publicada às 16h29 deste sábado pela jornalista Isabela Aleixo, do UOL Confere.

A conta tem duas parcelas que o senador desconsiderou. A queda da abstenção levou cerca de 3 milhões de eleitores a mais às urnas no segundo turno. A redução dos brancos e nulos acrescentou outros 1,8 milhão de votos válidos. Somados esses 4,8 milhões aos votos de quem havia escolhido candidatos eliminados na primeira rodada, havia 14,1 milhões de votos em disputa para os dois finalistas ampliarem suas votações. O avanço de Lula cabia nessa conta.

Flávio também atribuiu peso à prorrogação da votação na Bahia. Aqui, a comparação é ainda mais simples. Cerca de 34 mil votos foram registrados entre 17h e 19h, segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral citados pelo UOL. A vantagem nacional de Lula foi de 4,4 milhões de votos. Mesmo que cada um daqueles 34 mil eleitores tivesse votado no petista, o resultado da eleição seria o mesmo.

Resta a alegação de que seria proibido investigar. A história do próprio partido de Flávio oferece o exemplo mais próximo. Em 2022, depois da derrota de Jair Bolsonaro, o PL apresentou um relatório questionando as urnas. Naquela mesma eleição, ainda sob o governo de seu pai, as Forças Armadas fiscalizaram o pleito e produziram um relatório que não comprovou fraude. O UOL recordou ainda que, em 2014, o PSDB pediu auditoria depois de perder a eleição presidencial. O partido concluiu que não havia identificado fraude.

Das três entrevistas, talvez a pergunta mais incômoda para Flávio seja a que surge quando se põem lado a lado a carta de Miami e a conversa com a Folha. Se, como diz agora, ele próprio não tem certeza de quem ganhou, com que certeza se anunciou ao país como presidente eleito?

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