Durante anos, o Banco Master circulou longe dos holofotes do grande público. Restrito ao noticiário especializado e ao mercado financeiro, era um nome pouco familiar fora do círculo de investidores e operadores. Isso mudou radicalmente. O que começou como uma investigação sobre suspeitas de gestão fraudulenta transformou-se num dos casos mais confusos e ruidosos do momento, com cifras bilionárias, decisões controversas, personagens poderosos e um rastro que agora alcança o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional.
A investigação conduzida pela Polícia Federal aponta que o banco teria se aproveitado de fragilidades do mercado de capitais para montar operações financeiras destinadas a desviar recursos da própria instituição. Segundo os investigadores, o dinheiro não ficava no sistema: acabava direcionado ao patrimônio pessoal do controlador do banco e de pessoas do seu círculo familiar. O volume sob suspeita é gigantesco e ajuda a explicar por que o caso deixou de ser apenas técnico para se tornar um escândalo de grandes proporções.
O núcleo da apuração gira em torno de um mecanismo considerado sofisticado, mas com lógica simples. O banco captava recursos por meio de CDBs e direcionava esse dinheiro para fundos de investimento nos quais ele próprio aparecia como cotista único. Esses fundos, por sua vez, compravam papéis emitidos por empresas sem estrutura real, ligadas direta ou indiretamente aos sócios do banco. Na prática, o dinheiro fazia um percurso circular que inflava ativos e mascarava o verdadeiro destino dos recursos.
De acordo com os dados reunidos pela Polícia Federal, bilhões de reais passaram por esse caminho. Parte relevante desse montante teria financiado aquisições pessoais, transferências diretas e investimentos em nome de familiares. Uma das operações rastreadas apontou repasse milionário para o pai do controlador do banco. Em outro caso, um investimento de centenas de milhões de reais foi direcionado a uma clínica médica de pequeno porte, sem garantias, capital social e com faturamento irrisório, o que levantou a suspeita de uso de laranjas para dar aparência legal às operações.
À medida que o quebra-cabeça avançava, novos personagens surgiam. Empresas de fachada, pessoas sem patrimônio compatível, gestoras financeiras e empresários conhecidos passaram a aparecer nos documentos da investigação. O que parecia um esquema restrito ao banco começou a se revelar como uma teia extensa, com ramificações que atravessam o mercado financeiro e alcançam nomes influentes.
A partir daí, o caso ganhou outra dimensão. A investigação passou a tramitar sob decisões do Supremo Tribunal Federal, que autorizou buscas, apreensões e novas fases da operação. Em poucos dias, decisões judiciais ampliaram prazos para aprofundar as apurações, enquanto outras reduziram o tempo para a colheita de depoimentos. Essa alternância de movimentos, vista por alguns como técnica e por outros como contraditória, alimentou a percepção de instabilidade e abriu espaço para críticas políticas.
No Congresso, parlamentares passaram a questionar a condução do processo. Pedidos de suspeição contra ministro do Supremo foram apresentados, sob o argumento de possíveis conflitos de interesse envolvendo pessoas ligadas aos investigados. O caso, então, deixou de ser apenas um inquérito policial e se transformou num embate institucional, colocando sob escrutínio não só o banco e seus dirigentes, mas também a atuação do Judiciário.
As defesas negam irregularidades. O controlador do Banco Master afirma colaborar com as autoridades e sustenta que todas as operações seguiram a legalidade. Familiares citados na investigação dizem não ter envolvimento em atos ilícitos. Empresários mencionados nos autos afirmam que nunca foram sócios do banco e que qualquer relação se deu na condição de clientes, como ocorre com outras instituições financeiras.
Mesmo assim, o estrago institucional já está feito. O caso Banco Master virou sinônimo de um sistema que parece funcionar no limite, explorando brechas regulatórias, testando a capacidade de fiscalização do Estado e colocando pressão sobre as instâncias de controle. Cada novo desdobramento gera mais perguntas do que respostas, e a sensação é de que a história cresce mais rápido do que a capacidade de encerrá-la.
Hoje, o Banco Master já não é apenas um banco sob investigação. Tornou-se o centro de uma crise que envolve dinheiro público e privado, confiança no sistema financeiro, disputas políticas e questionamentos sobre a atuação do próprio Supremo. Um caso que começou discreto, mas que se transformou em um símbolo de como, no Brasil, escândalos financeiros raramente ficam restritos às planilhas e balanços.