Durante décadas, o futebol paraibano teve uma espécie de hierarquia quase automática. Botafogo, Treze e Campinense ocupavam o topo e, volta e meia, revezavam entre si o direito de decidir campeonatos. Era a ordem natural das coisas.
Pois bem. A natureza resolveu mudar. Pelo terceiro ano seguido, Botafogo e Sousa voltam a se encontrar na final do Campeonato Paraibano. O Belo continua sendo o gigante histórico: maior torcida, melhor posição no ranking da CBF, mais receitas e, desde 2025, um clube transformado em SAF, com promessa de investimentos robustos e de um salto de patamar.
No papel, parece um cenário de superioridade clara. Na prática, ainda não.
Desde que a SAF assumiu o comando do clube, dinheiro não faltou — ou pelo menos foi essa a impressão que ficou no mercado. Salários altos, nomes conhecidos e até rumores de cifras pouco comuns para os padrões locais, como o suposto salário de cerca de 200 mil reais pago ao veterano Nenê. Nada disso foi oficialmente confirmado ou desmentido, mas o fato é que o novo Botafogo ainda não levantou um troféu.
Prometeu disputar a Série B e não chegou nem perto. Em 2025, escapou do rebaixamento para a Série D apenas na última rodada. Em competições nacionais não deixou marca relevante.
Dinossauro medonho
Enquanto isso, do outro lado do estado, um clube muito mais jovem foi ocupando silenciosamente o seu espaço. Fundado nos anos 1990, o Sousa não tem o tamanho da torcida do Botafogo, não tem o mesmo orçamento e nem a estrutura de uma SAF. Mas tem algo que, no futebol, costuma pesar bastante: resultados.
Em 2024, acabou com um jejum de 15 anos e venceu o Botafogo na final do Paraibano nos pênaltis, no Almeidão. Em 2025, voltou a encontrar o mesmo adversário e confirmou que não se tratava de acaso: venceu o primeiro jogo no Marizão e segurou o empate em João Pessoa para conquistar o bicampeonato.
E não foi só no estadual que o “Dinossauro” mostrou que tem café no bule. Na Copa do Brasil de 2024 protagonizou uma das maiores histórias recentes do futebol nordestino ao eliminar o Cruzeiro com uma vitória por 2 a 0 no Marizão. Agora, em 2026, foi ainda mais longe: venceu o Santa Cruz nos pênaltis na Arena de Pernambuco e chegou à terceira fase, a melhor campanha de um clube paraibano na competição.
Diante desse histórico recente, surge uma curiosidade que mistura ciência, ditado popular e futebol.
Existe aquela velha frase segundo a qual um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. A ciência diz que isso é mito. O raio pode cair duas, três ou muitas vezes no mesmo ponto — especialmente quando encontra ali as condições certas.
No futebol paraibano, o Sousa já provou isso duas vezes. Agora começa a tentativa da terceira.
A partir deste domingo, o Botafogo tem diante de si mais do que uma final. Tem a chance de provar que a força financeira da SAF finalmente virou futebol dentro de campo. E, de quebra, impedir que o mesmo raio caia novamente sobre a sua estrela vermelha mais uma vez.
Porque, se depender do Sousa, a tempestade ainda está longe de passar.