João Pessoa, sábado, 5 de setembro de 2026
NY Times mostra como Trump decidiu atacar o Irã — e como manteve tudo em segredo
23/06/2025 09:22
Redação ON Reprodução

Uma reportagem especial do The New York Times, assinada por Mark Mazzetti, Jonathan Swan, Maggie Haberman, Eric Schmitt e Helene Cooper, revela os bastidores da decisão do ex-presidente Donald Trump de entrar na guerra entre Israel e Irã. O artigo detalha como o governo norte-americano arquitetou o ataque, enquanto escondia os preparativos inclusive das próprias forças armadas do Irã.

Na semana passada, Trump afirmou publicamente que levaria até duas semanas para decidir se atacaria instalações nucleares iranianas. Mas tudo não passava de uma encenação: ele já estava praticamente decidido, e os preparativos militares estavam em pleno andamento.

A ideia de lançar poderosas bombas anti-bunker sobre a instalação de enriquecimento de urânio em Fordo surgiu poucas horas após os primeiros ataques israelenses em 13 de junho. No dia seguinte, segundo um conselheiro ouvido pelo Times, Trump já dava sinais de que havia batido o martelo.

Mas o maior risco para a operação era o próprio Trump — e sua compulsão por redes sociais. Na segunda-feira passada, ele postou no Truth Social: “Todo mundo deve evacuar Teerã!”. No dia seguinte, revelou que havia deixado uma reunião do G7 no Canadá não para negociar um cessar-fogo no Oriente Médio, mas por algo “muito maior”. E concluiu com um provocador “Aguardem!”.

Preocupados com a possibilidade de que o Irã estivesse sendo alertado sobre um ataque iminente, estrategistas do Pentágono e do Comando Central dos EUA elaboraram um plano para despistar os radares e analistas. Duas esquadrilhas de bombardeiros B-2 decolaram do Missouri: uma voando para o oeste — visível em rastreadores de voo e usada como isca — e outra para o leste, que cruzou o Atlântico sem ser detectada, se encontrou com caças e ingressou no espaço aéreo iraniano.

Às 2h10 da madrugada de ontem (horário local), o primeiro bombardeiro lançou duas bombas anti-bunker sobre Fordo. Ao fim da missão, 14 bombas haviam sido lançadas.

Uma imagem de satélite da instalação iraniana após o ataque foi divulgada pela Maxar Technologies.

O ataque foi legal?

Os repórteres Michael Crowley e Edward Wong abordam a legalidade da ação com base em três frentes:

            •          Constituição dos EUA: O Artigo I concede ao Congresso o poder de declarar guerra e sustentar exércitos. Já o Artigo II define o presidente como comandante-chefe das Forças Armadas. Ao longo dos anos, presidentes de ambos os partidos têm alegado que podem ordenar ações militares sem aprovação legislativa.

            •          Lei americana: Após a Guerra do Vietnã, o Congresso aprovou a Resolução dos Poderes de Guerra (1973), exigindo que o presidente consulte os parlamentares antes de envolver tropas em hostilidades. No entanto, essa exigência é frequentemente ignorada por presidentes, que usam uma interpretação restrita do que significa “introdução de forças”. O próprio Congresso raramente exige o cumprimento da norma.

            •          Direito internacional: Alguns juristas admitem ataques preventivos se houver ameaça iminente. Mas, segundo Ryan Goodman, ex-assessor jurídico do Departamento de Defesa e professor da Universidade de Nova York, é difícil justificar essa ação nos termos da lei internacional. “É muito difícil ver como o governo pode atender a esse critério”, afirmou. Relatórios de inteligência dos EUA indicavam que o Irã ainda não havia decidido produzir uma arma nuclear. Além disso, alguns estudiosos afirmam que Trump violou a Carta da ONU ao atacar um Estado-membro.

Bombardeios, tensão global e reações

O confronto entre Irã, Israel e Estados Unidos continua a escalar. Nas últimas horas, o Irã lançou novos mísseis, enquanto Israel afirmou ter atingido “alvos militares” em Teerã. Em várias cidades israelenses, moradores buscaram abrigo em bunkers e abrigos subterrâneos. A cobertura em tempo real pode ser acompanhada no site do New York Times.

Apesar das declarações do ex-presidente Donald Trump de que o programa nuclear iraniano foi “aniquilado”, autoridades americanas adotaram um tom mais cauteloso. Elas reconheceram que não têm informações precisas sobre o paradeiro do estoque de urânio iraniano enriquecido em níveis próximos ao grau de armamento.

Fontes do governo norte-americano também detectaram sinais de que milícias apoiadas pelo Irã se mobilizam para atacar bases dos EUA no Iraque — e possivelmente na Síria — nas próximas horas ou dias.

Os mercados financeiros reagiram com nervosismo. Bolsas de valores ao redor do mundo registraram quedas generalizadas após os ataques. Um dos conteúdos mais acessados no The Morning de ontem foi um guia ilustrado explicando o funcionamento das bombas anti-bunker americanas.

As reações pelo mundo

            •          Irã: O governo tenta transmitir uma imagem de normalidade, mas, como relata a jornalista Farnaz Fassihi, há um sentimento generalizado de humilhação e impotência entre os iranianos.

            •          Diplomacia: Líderes mundiais e representantes diplomáticos correm contra o tempo para tentar conter uma nova onda de violência no Oriente Médio.

            •          Rússia: Com a reunião entre Vladimir Putin e o chanceler iraniano prevista para hoje, o Kremlin tenta rebater críticas de que estaria oferecendo apoio insuficiente ao Irã.

            •          China: Pequim criticou duramente os EUA, afirmando que os ataques prejudicam a credibilidade internacional de Washington.

            •          EUA: Em mais de uma dúzia de cidades americanas, manifestantes foram às ruas protestar contra os ataques ao Irã. A participação, no entanto, foi menor do que a registrada em protestos anteriores contra Trump.

A situação continua em rápida evolução, com impactos que podem reverberar por meses tanto na geopolítica internacional quanto na segurança regional no Oriente Médio.

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