Se o ex-ministro Marcelo Queiroga gravou um vídeo esperando estancar a crise provocada por sua fala chula em uma entrevista à televisão, o efeito foi exatamente o oposto. Não houve pedido de desculpas, não houve reconhecimento de excesso, não houve sequer um mínimo de constrangimento público. Houve, isso sim, um discurso autoindulgente, em tom de superioridade moral, como se o problema estivesse na reação das pessoas — e não nas palavras que ele próprio escolheu usar.
Ao comentar por que o campo bolsonarista ainda não fechou a chapa majoritária na Paraíba para 2026, Queiroga decidiu recorrer a metáforas de cunho sexual, dizendo que “não tem ejaculação precoce” e que “não é do tipo que goza na cueca”. A frase não acrescenta absolutamente nada ao debate político. Não explica estratégia, não esclarece bastidores, não informa o eleitor. Serve apenas como bravata, dessas que buscam arrancar riso fácil ou sinalizar “autenticidade”.
A reação negativa foi imediata porque a fala não é só inadequada: ela colide frontalmente com o discurso moral que o próprio bolsonarismo diz defender. O campo político que vive em guerra permanente contra “a erotização”, “a linguagem imprópria” e “a perda de valores” foi colocado diante do espelho por um de seus quadros mais conhecidos. E o reflexo não foi confortável.
No vídeo divulgado na sequência, Marcelo Queiroga tenta se blindar com frases genéricas e cuidadosamente ensaiadas. “Os paraibanos já me conhecem”, “sou um homem de posições claras”, “quando é necessário falar duro, eu falo”, “não preciso ofender ninguém”, “a verdade não precisa de gritos, precisa de coragem”. Em nenhum momento, porém, ele toca no ponto central: a escolha consciente de uma linguagem chula em uma entrevista pública.
Ao dizer que “fala simples, direto, para que todos entendam”, Queiroga tenta transformar grosseria em virtude e falta de filtro em sinal de autenticidade. É um truque retórico conhecido: quem é criticado por excesso se apresenta como vítima de um suposto “patrulhamento” ou de uma elite que não aceitaria a “linguagem do povo”. O problema é que ninguém pediu formalismo acadêmico. Pediu-se apenas o básico: decoro mínimo de quem já foi ministro de Estado e pretende ocupar uma cadeira no Senado.
A ausência de um pedido de desculpas não é detalhe. É um gesto político. Ela comunica que o erro, para ele, não existiu. Que o constrangimento causado é problema dos outros. Que o ruído é fruto de “incompreensão” ou “maldade” de quem critica. Esse tipo de postura, além de arrogante, revela uma visão muito particular de representação pública: a de que o político não deve satisfações ao eleitor quando ultrapassa a linha do aceitável.