Da varanda do meu apartamento, aqui em Tambaú, tenho uma visão nítida da padaria Bonfim, uma das mais antigas e tradicionais de João Pessoa. Era ali que Marcos Pires se reunia com os amigos, todos os dias, a partir das quatro e meia da manhã, para sair caminhando.
Daqueles encontros saíam mil histórias, mil piadas. Havia uma felicidade naquele convívio que, de certa forma, chegava até a minha janela. Às vezes, eu conseguia ouvir alguma coisa. Outras vezes, ligava para ele, e a gente se falava assim, cada um de um lado, enquanto João Pessoa começava a acordar.
Hoje, profundamente abalado com sua morte, é para aquela padaria que meu pensamento volta. Para a mesa, para os amigos, para a voz de Marcos. E, sobretudo, para uma lembrança que até agora me fazia sorrir.
Aconteceu, se a memória não me falha, no ano passado. Marcos estava fora do país. Eu voltava da minha caminhada e entrei na Bonfim para comprar pão. Estava com os fones de ouvido e, por uma dessas coincidências que a vida prepara sem explicar, começou a tocar “Naquela Mesa”, de Sérgio Bittencourt.
Olhei para o lugar onde ele costumava sentar. Marcos estava longe, e a música falava de uma ausência. Peguei o telefone e liguei dali mesmo, de dentro da padaria.
Contei que estava olhando para a mesa dele enquanto ouvia aquela canção. Nós rimos. Rimos muito. A saudade, naquele instante, podia virar brincadeira: ele estava viajando, atendera ao telefone, depois estaria de volta. Era apenas mais uma história para juntar às tantas que Marcos sabia contar como ninguém.
Nossa amizade também ganhou espaço num projeto muito importante para mim. Quando criei o portal O Norte Online, no final de 2024, Marcos foi um dos primeiros colunistas que convidei. A maneira como aceitou prontamente me encheu de otimismo. Naquele começo, ter sua companhia significava muito. Seu “sim” foi um gesto de confiança que guardo com gratidão.
Marcos se tornou um dos colunistas mais lidos do portal. A capacidade de contar histórias, o humor e seu jeito de observar a vida encontraram nos leitores o mesmo acolhimento que ele tinha entre os amigos. Era uma alegria tê-lo conosco.
Hoje, 7 de outubro de 2026, passei novamente na Bonfim. Ainda não havia recebido a notícia de sua morte. Olhei para a mesa onde ele costumava sentar e me lembrei daquela ligação. Da música tocando nos meus ouvidos. Da nossa risada ao telefone.
Pouco depois, veio a notícia. Marcos havia morrido, aos 72 anos. E aquela lembrança, que eu acabara de revisitar, ganhou um peso que está sendo difícil suportar.
Como jornalista, tantas vezes precisei encontrar palavras para contar a morte de alguém. Agora, diante da perda do amigo, elas parecem insuficientes. Penso na trajetória do advogado, no carinho dos leitores, na falta que fará ao nosso portal. Penso também naquele convite prontamente aceito. Mas o que mais me comove neste momento é lembrar a facilidade com que ele tornava uma manhã comum mais feliz.
É nisso que penso olhando daqui de casa. A padaria está ali. A mesa também. Amanhã, quando ainda estiver escuro e João Pessoa começar a acordar, vou sentir falta daquele movimento comandado por ele. Da conversa que às vezes chegava à minha janela. Da possibilidade de pegar o telefone e ouvir sua voz.
Naquela vez, liguei para Marcos e nós rimos da ausência dele.
Hoje, eu queria tanto poder ligar outra vez.
