terça-feira, 10 de março de 2026
Milei posta imagem que chama Brasil de favela, mas esquece de olhar os números
16/12/2025 12:22
Redação ON Reprodução

O presidente da Argentina, Javier Milei, resolveu fazer graça ideológica nas redes sociais. Nesta segunda-feira (15), ele repostou em seu perfil oficial no Instagram uma imagem que retrata a América do Sul de forma caricata: países como Brasil, Colômbia, Uruguai e Venezuela aparecem como uma grande favela, enquanto Argentina, Chile e Paraguai são mostrados como cidades futuristas, modernas e prósperas.

A publicação original trazia o slogan típico do manual ultraliberal: “O povo sul-americano grita liberdade. Basta de socialismo empobrecedor”. Milei não acrescentou comentário próprio. O repost bastou.

A ironia fica ainda mais evidente pelo timing. A imagem foi compartilhada um dia após a vitória de José Antonio Kast, candidato da ultradireita, nas eleições presidenciais do Chile. Com isso, o continente passa a ter um equilíbrio quase matemático: seis países governados por forças alinhadas à direita e seis pela esquerda.

O problema da postagem não é apenas o tom provocativo. É a desconexão completa com a realidade econômica — especialmente quando se coloca Brasil e Argentina em lados opostos da régua da prosperidade.

Enquanto Milei vende a Argentina como vitrine do futuro, os números contam outra história.

O Brasil é hoje a maior economia da América Latina, com um Produto Interno Bruto cerca de três vezes maior que o argentino. Sua estrutura econômica é diversificada, sustentada por um parque industrial relevante, um setor de serviços robusto, agronegócio competitivo e um mercado financeiro relativamente estável e desenvolvido.

A Argentina, por sua vez, ocupa a terceira posição regional e convive há anos com uma economia menos complexa, baixo nível de crédito privado e sucessivas crises de confiança. Não por acaso, tornou-se personagem recorrente de renegociações de dívida e pacotes de emergência.

No quesito estabilidade, a comparação chega a ser constrangedora para Buenos Aires. O Brasil, apesar de seus problemas fiscais e políticos, mantém inflação controlada dentro de parâmetros previsíveis, operando sob um regime monetário que busca previsibilidade. Já a Argentina enfrenta um cenário crônico de hiperinflação, com índices anuais que chegam a centenas de pontos percentuais, corroendo salários, poupança e qualquer planejamento de longo prazo.

O crescimento recente também desmonta a narrativa visual repostada por Milei. O Brasil vem registrando expansão econômica moderada, porém contínua. A Argentina, ao contrário, alterna períodos de recessão e estagnação, reflexo direto de seus desequilíbrios macroeconômicos históricos.

Em resumo, se o mapa imaginário de Milei fosse redesenhado com base em dados — e não em slogans —, talvez a estética mudasse bastante. O Brasil, com todas as suas contradições, oferece hoje um ambiente de maior robustez, escala e previsibilidade econômica. A Argentina, apesar do discurso agressivo e das promessas de choque liberal, ainda luta para sair de uma crise estrutural profunda.

A postagem do presidente argentino pode render aplausos em bolhas ideológicas nas redes sociais. Mas, fora do Instagram, quem manda mesmo é a economia real. E essa não costuma ser muito gentil com caricaturas.

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