Mesmo em missão oficial em Israel, o prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena (PP), acompanhou à distância a movimentação política que sacudiu os bastidores da sucessão estadual na Paraíba nesta semana. E, ainda que de forma discreta, enviou um recado claro — e dúbio — ao cenário político e, sobretudo, a alguns dos seus próprios aliados.
No centro da polêmica está a suposta definição, atribuída ao governador João Azevêdo (PSB), de uma chapa já montada para 2026, com Lucas Ribeiro (PP) na cabeça de chapa e Cícero fora do jogo. A informação, inicialmente divulgada pelo radialista Bruno Pereira, repercutiu com força na imprensa e nos bastidores, a ponto de provocar uma reação imediata do deputado Hervázio Bezerra (PSB), um dos principais defensores da candidatura de Cícero ao governo.
Pai do atual vice-prefeito da capital, Léo Bezerra, Hervázio subiu à tribuna da Assembleia Legislativa, buscou interlocutores do governo — incluindo o secretário Nonato Bandeira — e saiu de lá com a versão de que não há definição alguma. E fez questão de torná-la pública.
Foi nesse contexto que, mesmo fora do país, Cícero resolveu se manifestar: “Ninguém está autorizado a falar em meu nome. Quem quiser conversar, que fale comigo. E eu só negocio com o povo”, afirmou o prefeito ao site ClickPB, durante compromissos em Kfar Saba, Israel, onde participa de agendas voltadas à inovação e tecnologia.
A fala, embora tenha sido lida por muitos como um recado à base governista e um reforço à sua imagem de independência, também foi interpretada como um sinal de incômodo com a defesa feita por Hervázio. Ao dizer que “ninguém está autorizado a falar por ele”, Cícero, de certa forma, desautoriza inclusive aqueles que saíram publicamente em sua defesa, como o próprio deputado.
Nos bastidores, aliados próximos avaliam que o prefeito tenta se manter distante da disputa aberta que começa a se desenhar, preservando sua imagem de gestor técnico e independente, evitando ser usado como peça de pressão por qualquer um dos lados. O gesto de Hervázio, embora em tese bem-intencionado, pode ter sido visto como precipitado ou mesmo inoportuno.
O episódio expõe, mais uma vez, as complexidades da engenharia política que começa a ser montada para 2026 na Paraíba. Com um tabuleiro ainda indefinido e muitas articulações de bastidores, Cícero sinaliza que não pretende ser incluído em nenhuma composição sem sua anuência expressa — nem como nome de consenso, nem como moeda de troca.
A sucessão estadual está apenas começando, mas os recados, mesmo os à distância, já mostram o nível de tensão que deve marcar o processo daqui para frente.