A presença britânica na Paraíba é mais marcante do que muitos imaginam. Sobrenomes como Dore, Holmes, Smith, Stuart, Stanford e Walker ainda são comuns entre paraibanos, herança direta da imigração inglesa que acompanhou a construção das ferrovias no Nordeste. Foi a partir da expansão da malha ferroviária da Great Western Railway (GWR) que engenheiros, técnicos e trabalhadores de diversas partes do Reino Unido desembarcaram no estado, ainda durante o Império, para erguer trilhos que atravessariam séculos.
Mas a contribuição britânica não se resume aos trilhos. Há sinais visíveis da influência inglesa em espaços como a atual Praça João Pessoa, com seu coreto, gradis e portões que remetem aos tradicionais jardins públicos britânicos. Outro símbolo é o Prado Paraibano, no bairro de Jaguaribe, que começou como um Jockey Club, trazendo a paixão britânica pelas corridas de cavalo — esporte que daria lugar, mais tarde, ao futebol, então conhecido como “esporte bretão”.
A comunidade inglesa era tão significativa que mantinha um consulado em João Pessoa e um cemitério próprio: o chamado “Cemitério dos Ingleses”, localizado na Ilha Stuart, no estuário do rio Paraíba. Como anglicanos, os súditos da Coroa britânica não podiam ser enterrados nos cemitérios católicos, então a ilha passou a abrigar seus mortos — em cerimônias discretas, longe do centro da cidade.
Hoje, no entanto, pouco resta desse capítulo da história paraibana. A Ilha Stuart está praticamente esquecida, com o antigo cemitério tomado por areia e água, sem qualquer política de preservação. Não há sinalização, fotografias disponíveis ou registro visual acessível na internet. O espaço que abrigou corpos e histórias da epopeia inglesa no estado caminha para o completo desaparecimento.
O abandono do local é sintomático. Revela uma falha cultural mais profunda: a falta de reconhecimento e valorização do patrimônio histórico. “Destruímos sem remorso porque não sabemos o que possuímos nem onde pisamos”, lamenta um observador atento da história local.
Enquanto o passado se apaga sob a lama do esquecimento, a herança britânica na Paraíba resiste apenas nos nomes, nos traços urbanísticos e nas memórias dos poucos que ainda se lembram.