terça-feira, 4 de agosto de 2026
Marco Zero de João Pessoa: onde realmente começou a cidade?
25/05/2025 12:18
Redação ON Reprodução

Com a cidade de João Pessoa prestes a completar 440 anos, uma polêmica antiga volta à tona: afinal, onde fica o verdadeiro Marco Zero da capital paraibana? Muitos apontam para um bloco de concreto existente na lateral do adro da Basílica de Nossa Senhora das Neves, na Praça Dom Ulrico, como sendo o Marco Zero da cidade. O objeto foi colocado ali pelo IBGE, em 1922, durante as comemorações do Centenário da Independência.

No entanto, o jornalista e escritor Petrônio Souto, estudioso da história paraibana, faz um alerta importante: esse marco instalado na Praça Dom Ulrico é, na verdade, um Marco Geodésico, e não o Marco Zero. Segundo ele, trata-se apenas de um ponto de referência cartográfica, colocado pelo IBGE para indicar coordenadas geográficas exatas, e que foi com o tempo erroneamente confundido com o Marco Zero da cidade.

Souto explica que o Marco Zero, por definição, representa o centro a partir do qual a cidade se expande, e sua localização histórica deveria estar associada ao verdadeiro local de origem do núcleo urbano. E aqui mora a dúvida: qual seria esse ponto?

Há quem diga que ele estaria na atual Praça Napoleão Laureano, antigo Largo da Estação, no Varadouro, onde, exatamente por essa razão, a Comissão do IV Centenário achou por bem recomendar a construção do Monumento ao IV Centenário, em 1985. Nosso Marco Zero estaria representado pela rosa dos ventos do monumento.

Outros garantem que o nosso Marco Zero estaria na área do atual Porto do Capim, mais precisamente “na colina fronteiriça ao Rio Sanhauá”, o que corresponderia ao atual Largo de São Frei Pedro Gonçalves e seu entorno, onde os colonizadores teriam inicialmente se estabelecido, conforme está escrito no “Sumário das Armadas”, para muitos, a certidão de nascimento da Paraíba.

O médico e historiador paraibano, profundo estudioso do nosso Período Colonial, Guilherme D’Ávila Lins, justifica que, no caso especial da capital da Paraíba, de fato, os portugueses estiveram em solo paraibano no dia 5 de agosto, mas apenas para selar a paz com os Potiguaras. As primeiras edificações só foram iniciadas em 4 novembro daquele mesmo ano de 1585.

Com as notícias das conquistas realizadas por João Tavares, a 15 de outubro, partiu de Pernambuco Martim Leitão, acompanhado de pedreiros, carpinteiros, entre outros oficiais, para tratar da instalação de uma povoação na Paraíba. Aprovado o sítio escolhido por João Tavares para a fundação da cidade, a 4 de novembro, “teve início a construção de um fortim, no Varadouro, que constituiu o ponto inicial daquele núcleo de povoamento”, rememora D´Ávila Lins, falecido em setembro de 2023.

Em julho de 2000, durante os trabalhos de restauração da igreja de São Frei Pedro Gonçalves, foram identificadas pelos técnicos (historiadores, arqueólogos e arquitetos) ruínas soterradas de uma fortificação de fins do século XVI, com área estimada de 10.000 m². No entanto, lamentavelmente, as pesquisas arqueológicas não tiveram prosseguimento e até hoje não se conhece o forte em sua totalidade.

Apesar da constante ameaça que representava a presença dos índios Potiguaras, aos poucos a cidade foi se constituindo, “assentada em uma encosta, tendo por porta de entrada o Rio Sanhauá, acesso para as embarcações que ali chegavam”.

Ainda conforme registros históricos, no alto da colina, foi edificada uma capela que era importante ponto de referência para a cidade, sendo, em pouco tempo, elevada à condição de igreja matriz, onde atualmente funciona a Basílica de Nossa Senhora das Neves. “Assim, foi definida a estrutura inicial da nossa cidade, dividida entre a cidade alta – o lugar da matriz – e a cidade baixa, à margem do rio, área também denominada de Varadouro”.

“Confundir Marco Geodésico com Marco Zero é um erro grave”, reforça Petrônio Souto. “O Marco Geodésico é técnico, voltado à posição cartográfica; o Marco Zero tem um significado mais simbólico, histórico, se tornando um fator de grande importância para o turismo da cidade.

A definição do nosso Marco Zero deveria passar a ser uma preocupação das autoridades, tendo em vista a importância da capital paraibana para a história do nosso país e o crescimento exponencial do turismo local.” – afirma Souto.

Além da dúvida nunca devidamente esclarecida, Souto também lamenta o abandono do Marco Geodésico instalado pelo IBGE, ao lado da Basílica, na Praça D. Ulrico— danificado, com inscrições ilegíveis, esquecido tanto pela população quanto pelo poder público.

Em tempos de revisão histórica, expansão urbanística e valorização do patrimônio, talvez seja hora de a cidade redescobrir o seu próprio ponto de partida – não apenas como um local no mapa, mas como símbolo da identidade e da memória de João Pessoa.

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