Uma manifestação realizada neste domingo (14), no Busto de Tamandaré, em João Pessoa, reuniu centenas de pessoas em protesto contra o projeto de lei que tenta reduzir as penas dos condenados pela tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro, o chamado PL da dosimetria. O ato contou com a presença de lideranças políticas, sindicatos, movimentos sociais, estudantes e artistas.
A mobilização, embora expressiva, foi menor do que a manifestação anterior ocorrida no mesmo local, que tinha caráter explicitamente anti-blindagem e protestava contra um projeto de lei considerado vergonhoso por tentar proteger parlamentares de investigações. Naquela ocasião, a pressão popular em diversas capitais do país foi determinante para que o Congresso Nacional recuasse e engavetasse a proposta, num raro momento em que a rua conseguiu impor um freio ao Parlamento.
No ato deste domingo, o foco voltou-se para a tentativa de suavizar as punições aos envolvidos nos ataques às sedes dos Três Poderes. Parlamentares citados no carro de som como apoiadores da dosimetria foram vaiados pelo público presente, entre eles Marsinho Lucena e Romero Rodrigues, evidenciando o desgaste político do tema junto a setores organizados da sociedade.
Em João Pessoa, além das críticas ao Congresso e ao projeto da dosimetria, um dos focos centrais da manifestação foi o deputado federal Hugo Motta (Republicanos), paraibano e atual presidente da Câmara. Faixas, cartazes e palavras de ordem direcionaram ataques ao parlamentar, apontado pelos manifestantes como “inimigo do povo” e responsabilizado pela condução das pautas que tratam da redução de penas e da anistia aos envolvidos nos atos golpistas.
Entre as lideranças políticas presentes estavam a deputada estadual e presidente do PT na Paraíba, Cida Ramos; o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB); o deputado federal Luiz Couto; e o ex-governador Ricardo Coutinho. Ricardo circulou intensamente entre os manifestantes, foi bastante tietado e atendeu a diversos pedidos de fotos, demonstrando forte receptividade do público.
Um detalhe político relevante chamou atenção nos bastidores do ato: a aproximação pública entre Veneziano Vital e Cida Ramos, registrada inclusive em foto, ocorre em uma semana marcada por desconforto explícito do PT com o MDB. O mal-estar foi provocado pelo voto de Marsinho Lucena — filho do prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena — favorável ao projeto da dosimetria. Nos bastidores, cresce a disputa pelo apoio do PT para 2026, envolvendo o MDB, partido ao qual Cícero se filiou a convite de Veneziano, e o PSB do governador João Azevêdo. A presença ativa do senador no ato foi interpretada como uma tentativa de apagar incêndios e recompor pontes com o partido.
Durante sua fala, Veneziano reafirmou posição contrária ao projeto e questionou os interesses por trás da proposta. Disse não haver justificativa para tratar como medida de justiça uma iniciativa que, segundo ele, atende a interesses específicos e relativiza um ataque direto à democracia.
Além da pauta contra a dosimetria, os manifestantes defenderam uma agenda mais ampla, que inclui o fim da escala de trabalho 6×1, a valorização da classe trabalhadora, a garantia de direitos sociais, a defesa da cultura e a implementação de justiça fiscal. O ato integra um movimento nacional que conta com a adesão de entidades como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a União Nacional dos Estudantes (UNE).
A manifestação também teve caráter cultural, com apresentações de artistas como Escurinho, Ruanna e Cida Alves, reforçando o tom político e simbólico do protesto.
