segunda-feira, 16 de março de 2026
Mailson da Nóbrega conta como foi “sabatinado” por Roberto Marinho, antes de assumir o Ministério
16/03/2026 05:40
Redação ON Reprodução

Em tempos de poder fragmentado nas redes sociais e na multiplicidade de veículos de comunicação, pode parecer exagero dizer que um empresário de mídia tinha influência direta sobre decisões do presidente da República. Mas houve uma época em que isso era praticamente um fato da vida política brasileira.

Uma das histórias mais ilustrativas desse período envolve um paraibano: o economista Maílson da Nóbrega, que assumiu o Ministério da Fazenda em janeiro de 1988, no governo de José Sarney.

Recentemente, o próprio Maílson contou um episódio que revela como funcionava o peso político da comunicação no Brasil daquele tempo. Para aceitar o convite de Sarney, ele precisou, na prática, passar por uma espécie de sabatina informal com Roberto Marinho, fundador da TV Globo.

A história, recontada pelo próprio ex-ministro em um vídeo que circula nas redes, foi publicada no perfil do Instagram ‘A Grande Verdade”,  e é resgatada aqui pelo portal O Norte Online.

Tudo começou quando o então ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira deixou o cargo. Sarney telefonou para Maílson – então Secretário Geral da pasta – e pediu que ele fosse até São Luís para uma conversa. O encontro foi longo.

“Conversamos cinco horas. Ele me fez uma sabatina sobre tudo. O presidente Sarney é um homem muito bem informado”, contou o economista.

Ao final da conversa, veio o convite: “Eu queria que o senhor aceitasse o meu convite para ser ministro da Fazenda.”

Maílson aceitou imediatamente. Mas Sarney fez uma observação que revelava a engrenagem invisível da política brasileira.

“Agora eu vou levar um tempo para anunciar. Eu tenho que convencer o doutor Roberto Marinho de que você pode ser um bom ministro.”

O próprio Maílson estranhou: “Eu disse: mas ele tem alguma coisa contra mim?”

Sarney respondeu que não. O problema era outro: o empresário da Globo tinha uma indicação em mente para o cargo, o então presidente do Banco do Brasil, Camilo Calazans.

A solução foi simples e direta. Maílson teria de conversar pessoalmente com Roberto Marinho.

O encontro aconteceu na presença de uma figura que também simbolizava o poder político da época: o então governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães. Depois de uma breve apresentação, ACM saiu da sala, deixando o economista a sós com o dono da Globo.

Veio então uma nova sabatina. Segundo Maílson, Roberto Marinho perguntou de tudo: dívida externa, inflação, crescimento econômico, política monetária, juros, desigualdade e corrupção.

“Uma verdadeira sabatina”, recordou.

Quando a conversa terminou, Antônio Carlos Magalhães reapareceu para acompanhá-lo até o elevador. Antes de sair, pediu que ele aguardasse alguns minutos enquanto voltava para falar com Marinho. Pouco depois, voltou com o veredito.

“Olha, o dr. Roberto adorou você. Parabéns.”

Deu no Plantão da Globo

Maílson seguiu então para o Ministério da Fazenda. Ao entrar em sua sala, encontrou as secretárias já comemorando. “Parabéns, parabéns.”

Sem entender, perguntou o que estava acontecendo. “Você é o novo ministro da Fazenda.”

Ele ainda não tinha recebido nenhuma comunicação oficial. A confirmação tinha vindo de outro lugar. “Quem te falou isso?”, perguntou.

A resposta foi direta: “Deu no plantão do Jornal Nacional.”

Na avaliação do próprio Maílson, muita gente ironiza esse episódio como prova de um suposto poder excessivo de Roberto Marinho. Mas ele oferece uma interpretação mais pragmática.

Segundo o ex-ministro, até a morte do empresário, praticamente todos os presidentes da República demonstravam enorme respeito – ou cautela – em relação a ele.

A razão era simples: Roberto Marinho não apenas informava o país. Ele também tinha poder para influenciar profundamente a opinião pública.

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