A História tem dessas coisas: às vezes, o acontecimento que parece encerrar uma narrativa é justamente aquele que nos obriga a retornar ao ponto de partida.
Foi sob o impacto desse movimento que me pus a refletir sobre a eleição presidencial de 2026.
Enquanto milhões de brasileiros acompanhavam a contagem nervosa dos votos, as pesquisas e os debates, algumas questões me inquietavam o juízo. Não se tratava apenas de decifrar quem venceria, mas de tatear o que se movia nos subterrâneos daquela disputa. Que interesses operavam nas sombras? Que projetos institucionais estavam sendo gestados? E quais costuras uniam acontecimentos aparentemente dispersos?
Como historiador, sei que nosso ofício rejeita o dogmatismo de transformar coincidências em provas ou suspeitas em condenações. Exige-se o confronto rigoroso das hipóteses com os documentos, as fontes e os testemunhos. Mas o rigor não nos condena à passividade: não me basta repetir o óbvio das manchetes, como se a História fosse uma mera sucessão de fatos consumados.
Como educador freiriano, trago comigo a certeza de que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Como militante dos direitos humanos, sei que a democracia de verdade não se reduz ao gesto periódico de depositar o voto na urna. E, como historiador, compreendo que as engrenagens entre o poder político, o capital e as instituições precisam ser radiografadas para além das aparências oficiais.
É sob essa ótica dialética que proponho TR3Z3 pontos para compreender a eleição de 2026. Parto de uma inquietação que antecede o primeiro turno e caminho até uma hipótese que nos fará, inevitavelmente, voltar ao começo.
1. Agosto: a Ilha da Madeira e o primeiro fio da meada
Antes mesmo que as urnas do primeiro turno se abrissem, investigações já rondavam o advogado Willer Tomaz e estruturas empresariais ligadas ao mercado de apostas. No centro dos dados divulgados estava a Alcazar Holding, sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, acompanhada da suspeita de que Flávio Bolsonaro possuiria acesso privilegiado — como usuário master — a uma conta vinculada à empresa.
As apurações examinam fluxos financeiros, relações societárias e comunicações entre os envolvidos. Cabe o registro rigoroso: investigação não é condenação. Flávio Bolsonaro nega as irregularidades e a defesa de Tomaz sustenta a legalidade de seus negócios.
Porém, a cronologia aqui é chave. Willer Tomaz deixou o Brasil em agosto de 2026. As informações sobre o suposto acesso do senador à conta da holding só ganharam o debate público em outubro. Essa distância entre o momento do fato e o dia da sua revelação é crucial.
Em agosto, o cenário era de total incerteza. Ninguém sabia quem venceria ou se haveria segundo turno. É nessa atmosfera de indefinição que nasce a primeira pergunta: teria começado, ali na frente, um planejamento estratégico para enfrentar desfechos políticos e judiciais adversos? Ainda não temos o documento definitivo para responder. Por ora, é uma hipótese — mas peço que o leitor a guarde na memória.
2. O debate da Globo e a velha tática do etarismo
No debate da TV Globo, as investidas de Flávio Bolsonaro contra Lula trouxeram à tona insinuações preconceituosas sobre a idade e a capacidade intelectual do presidente. O episódio expõe o uso político do etarismo como ferramenta de desqualificação.
Criticar propostas, metas e rumos do governo é do jogo democrático. Mas carimbar incapacidade em alguém baseando-se apenas nos seus anos de vida é puro preconceito. Uma sociedade que envelhece precisa aprender a debater a presença política dos mais velhos sem transformar a senioridade em invalidez.
3. Os nove dedos: a cicatriz da classe trabalhadora
Outro ataque desferido no debate mirou um símbolo profundo da biografia de Lula: o dedo perdido na engrenagem de uma fábrica. Esse deboche não pode ser isolado da história social do Brasil.
A mão de um operário guarda a memória viva da exploração e do risco cotidiano da produção. A ausência daquele dedo fala por milhões de trabalhadores mutilados pelo descaso. Transformar uma sequela de acidente de trabalho em piada política é de um capacitismo perverso, que agride a dignidade humana. A crítica ao homem público deve ser feita no campo das ideias e das decisões; sua carne trabalhadora merece respeito. A cicatriz de Lula não é desonra, é testemunho histórico.
4. Empresas, imprensa e plataformas: o controle da palavra
A campanha de 2026 também reabriu o debate sobre o papel de gigantes econômicos e tecnológicos no processo eleitoral. TIM, GOL, Meta, Google e veículos do consórcio de imprensa foram alvos de críticas sobre o tratamento dado às candidaturas.
Não se trata de presumir um conluio secreto sem provas documentais. Contudo, o problema estrutural permanece: qual o limite do poder financeiro e midiático na moldagem da opinião pública? A velha imprensa dita prioridades editoriais e enquadramentos. As plataformas digitais, controladas por algoritmos opacos, filtram e distribuem o que devemos ou não ver. A análise histórica precisa questionar não apenas o que foi dito, mas a quem foi dado o privilégio da visibilidade.
5. O direito ao voto e os muros do transporte
As denúncias de barreiras e dificuldades impostas ao trânsito de eleitores, inclusive com indícios de ações coordenadas por aparatos estaduais, ferem o coração da cidadania. O direito de votar não pode ficar refém de conveniências partidárias ou de manobras administrativas criminosas. É imperativo que se apurem as responsabilidades por cada bloqueio. A soberania popular só existe quando o caminho até a urna é livre de constrangimentos e cercas.
6. Relógios estendidos: a garantia da igualdade
A extensão da votação até as 19 horas nas seções que registravam filas às 17 horas foi um momento de extrema tensão no segundo turno. Longe de fazer leituras apressadas sobre as intenções de quem pediu ou de quem tentou barrar a medida, cabe olhar para o efeito concreto da decisão judicial: garantir que o povo votasse. O princípio maior deve ser sempre a salvaguarda do sufrágio dentro da estrita legalidade e da igualdade de condições.
7. O papel das instituições face ao sigilo
Acusações de que autoridades agiram para abafar a divulgação de diálogos interceptados entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz jogam luz sobre os limites da transparência. O sigilo judicial legítimo não se confunde com blindagem criminosa, mas qualquer acusação de interferência indevida precisa apontar atos materiais e agentes concretos. A democracia clama por instituições autônomas, mas igualmente abertas à fiscalização social.
8. O “Exército do Lula” e as trincheiras digitais
A militância batizada de “Exército do Lula” foi peça central na guerra de narrativas nas redes. Sua atuação reflete as novas dinâmicas da comunicação política, onde a disputa se mudou dos palanques físicos para ecossistemas digitais governados por corporações estrangeiras. Decisões judiciais contraditórias sobre conteúdos semelhantes na internet mostram a urgência de regras claras. Democratizar a comunicação segue sendo a grande tarefa inacabada do nosso tempo.
9. A escala 6×1: a vida além do labor
A centralidade da luta pelo fim da escala de trabalho 6×1 empurrou para dentro da campanha uma das maiores contradições do capitalismo brasileiro. Discutiu-se, ali, o direito ao tempo: tempo para o descanso, para o estudo, para a família e para a própria militância.
Enquanto a burguesia e seus porta-vozes choravam custos e alegavam riscos à produtividade, a classe trabalhadora defendia sua saúde e dignidade. A história nos ensina que a jornada de trabalho nunca foi uma concessão, mas fruto de duras batalhas coletivas. A disputa eleitoral sobre o tema precisa ser lida nessa linha de continuidade histórica.
10. Pesquisas eleitorais e a guerra psicológica
Pesquisas de intenção de voto não são meras fotografias do momento; elas atuam diretamente na construção de expectativas e na desmobilização ou fomento de ânimos. A tese de que o crescimento de Lula foi subnotificado ou camuflado em certas coberturas jornalísticas exige um estudo comparativo rigoroso de dados e enquadramentos midiáticos. Pesquisa mede tendência; a urna recolhe o voto real. Trocar a realidade pela projeção é o primeiro passo para o erro de análise.
11. O pós-primeiro turno e a ousadia do pacto conservador
Vitorioso na primeira etapa, Flávio Bolsonaro e seu entorno não perderam tempo e passaram a esboçar a arquitetura de um futuro governo. Mais do que a tradicional dança das cadeiras pelos ministérios, duas promessas do candidato acenderam o alerta vermelho.
Primeiro, a intenção declarada em setembro de indicar cinco novos ministros ao Supremo Tribunal Federal. Segundo, o anúncio em outubro, embalado pela eleição de uma robusta bancada conservadora, de que usaria o Parlamento para alterar a Carta Magna e “redemocratizar” o país.
A Constituição de 1988 prevê emendas, mas impõe as Cláusulas Pétreas como muralhas contra o arbítrio e em defesa da separação dos Poderes. Uma maioria circunstancial no Congresso não confere poderes imperiais a ninguém. Da mesma forma, reconfigurar a composição do STF exige vagas reais e o crivo do Senado. Contudo, o recado político foi dado. E aqui a nossa hipótese de agosto ganha corpo: se o plano principal previa uma ampla reorganização das instituições do Estado por dentro, o que se arquitetava caso a derrota batesse à porta? A pergunta é historicamente legítima.
12. O segundo turno: quando as urnas rasgaram o roteiro
Em 4 de outubro de 2026, as urnas pareciam sorrir para a reação: Flávio Bolsonaro liderou o primeiro turno com 56.104.503 votos (47,03%), empurrando Lula para o segundo lugar com 53.879.538 votos (45,16%).
Três semanas depois, a mobilização popular virou o jogo. Em 25 de outubro, Lula cravou 64.256.232 votos (51,79%), deixando o adversário com 59.826.041 (48,21%). Foram mais de dez milhões de novos votos conquistados por Lula de um turno para o outro, num movimento impulsionado pela queda da abstenção (de 21,08% para cerca de 19,2%).
A participação decisiva da juventude, das periferias e das pessoas com deficiência ainda carece de estudos detalhados, mas o fato político está consolidado: quebrou-se uma regularidade histórica. Pela primeira vez desde a redemocratização, quem terminou o primeiro turno em segundo lugar sagrou-se vencedor na rodada final. A História não anda em linha reta e o povo não tem obrigação de seguir o script dos analistas de plantão.
13. O Plano B: uma rota de fuga planejada?
Retorno, inevitavelmente, ao primeiro ponto. Faço isso porque a cronologia fria dos fatos é mais reveladora do que qualquer convicção apressada.
• Em agosto, na incerteza da disputa, Willer Tomaz deixa o país.
• Posteriormente, ganham divulgação pública informações sobre as investigações envolvendo a Alcazar Holding e o suposto acesso de Flávio Bolsonaro à conta empresarial em Portugal.
• Em setembro, fala-se em enquadrar o STF.
• Em outubro, promete-se uma nova ordem constitucional.
• Após o fechamento das urnas, novos dados sugerem movimentos preventivos de saída do país por parte de investigados.
Teria existido um “Plano B”, traçado muito antes da derrota, desenhado para o caso de perda do poder político e do avanço das investigações judiciais? Investigar isso não significa pressupor que eles sabiam que iam perder; pelo contrário, é justamente a incerteza eleitoral de agosto que torna pertinente investigar a existência de alternativas.
É preciso, contudo, evitar o primarismo jurídico. O mandato de senador de Flávio termina em 31 de janeiro de 2027, mas o STF já fixou o entendimento de que o foro por prerrogativa de função continua valendo mesmo após o fim do mandato para crimes cometidos durante o exercício do cargo e em razão das funções desempenhadas. A perda da cadeira não joga os processos automaticamente na primeira instância, assim como uma vitória presidencial não apagaria crimes passados nem daria salvo-conduto universal.
A tese de um Plano B exige a busca obstinada por provas materiais, registros de comunicação e transações anteriores ao pleito. A viagem de Tomaz em agosto ou o resultado de outubro não são provas automáticas de conspiração ou fuga, mas são frestas na parede. E se aquilo que emergiu depois das urnas tiver sido plantado muito antes delas? Essa é a costura que une o primeiro ao décimo terceiro ponto.
A História não termina com a apuração
Ao amarrar esses TR3Z3 pontos, meu objetivo não é usurpar o papel da polícia ou do Ministério Público, tampouco ditar verdades absolutas. Meu papel aqui é exercer o dever do historiador: fazer perguntas incômodas, cruzar dados, expor contradições e mapear as fronteiras do que ainda precisa ser descoberto.
Minha caminhada como professor e militante dos direitos humanos me ensinou que a democracia não se defende apenas apontando o dedo para os tanques nas ruas, mas vigiando de perto os passos daqueles que detêm o poder. Aprendi com Paulo Freire que não há emancipação sem a rigorosidade da denúncia e o anúncio de um novo amanhã. E aprendi com as dores do Brasil que a liberdade conquistada nunca é definitiva.
A vitória de Lula em 2026 é um marco incontestável nas urnas. Mas a reeleição, por si só, não pacifica as contradições da nossa formação social. Os desafios estruturais continuam intocados: o racismo sistêmico, a vergonhosa concentração de renda, a precarização do trabalho, a agonia da educação pública, a chaga do feminicídio, a violência contra os corpos LGBTQIA+ e o ataque sistemático aos territórios indígenas e quilombolas.
A democracia real exige muito mais que o sucesso eleitoral de um projeto. Exige a vigilância das instituições, direitos palpáveis no prato do povo, organização popular de base e liberdade irrestrita para questionar os de cima.
Lembro-me aqui da ironia cortante de Henfil e da teimosia que empurrou nossa geração na luta pela redemocratização. Lembro-me, sobretudo, do chamado freiriano de que a nossa esperança não pode ser do verbo esperar, mas do verbo esperançar — que é ir atrás, construir, não desistir.
Enquanto muitos celebram ou lamentam quem venceu, meu compromisso é desvendar as forças que operaram antes, durante e depois do resultado. Porque a História nunca se esgota no dia da festa: ela ganha vida nas perguntas que a poeira das urnas deixou no ar.
O décimo terceiro ponto não fecha a tampa de nada. Ele me empurra de volta para o primeiro.
LULA TETRA!
Tô vendo uma esperança!
Axé, democracia!
©️Marcus Alberto Moura Maciel
Brasília, outubro de 2026.

