A relação entre Brasil e Estados Unidos, que chegou a ser tratada como promissora no início da convivência entre Lula e Donald Trump, entrou em uma fase de desconfiança e tensão crescente nos bastidores do Palácio do Planalto. A chamada “química” entre os dois líderes, antes celebrada, agora dá sinais claros de desgaste — quando não de desaparecimento.
O episódio mais recente que acirrou o clima foi a tentativa de entrada no Brasil de Darren Beattie, assessor ligado ao núcleo ideológico do trumpismo. A movimentação foi interpretada em Brasília como uma possível interferência política externa em pleno ano eleitoral.
Beattie pretendia visitar Jair Bolsonaro, além de manter contatos com integrantes do Judiciário, incluindo o futuro presidente do TSE. No Planalto, a leitura foi direta: não se tratava de uma agenda institucional, mas de uma tentativa de articulação política. A entrada acabou barrada, elevando o nível de tensão entre os dois países.
Nos bastidores, porém, há uma avaliação que relativiza o grau de envolvimento direto de Trump no episódio. O presidente americano está fortemente concentrado na guerra com o Irã — um conflito que tem gerado desgaste político interno, custos elevados e críticas dentro dos Estados Unidos.
Com isso, auxiliares de Lula consideram que a iniciativa de Beattie pode ter partido de setores mais ideológicos do governo americano, que teriam se aproveitado da menor atenção de Trump à América Latina para agir por conta própria.
Ainda assim, o episódio se soma a uma série de atritos que vêm se acumulando. Um dos pontos mais sensíveis é a insistência dos Estados Unidos em enquadrar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas — uma pauta que é rejeitada de forma contundente pelo Planalto.
Para o governo brasileiro, essa classificação abre espaço para intervenções externas e amplia a possibilidade de ingerência sobre políticas de segurança e soberania nacional. A proposta é vista como inadequada à realidade brasileira e como parte de uma estratégia mais ampla de pressão.
Além disso, demandas americanas envolvendo compartilhamento de dados, inclusive informações sensíveis, e exigências consideradas excessivas por Brasília reforçam o clima de desconfiança e alimentam o discurso de defesa da soberania nacional por parte de Lula.
É nesse ambiente que surge a possibilidade de um encontro entre os dois presidentes, cogitado para abril, nos Estados Unidos. O que poderia simbolizar uma reaproximação passou a ser tratado com cautela — e até apreensão.
No Planalto, cresce o temor de que Lula seja colocado em uma situação constrangedora diante das câmeras. A preocupação é de que Trump transforme o encontro em um espetáculo político, criando um cenário de pressão pública.
O receio é de um “emparedamento” que leve o presidente brasileiro a reagir de forma mais dura, produzindo imagens e declarações que possam ser exploradas politicamente.
Diante desse cenário, o encontro, que em outro momento poderia representar avanço nas relações bilaterais, hoje é visto por aliados de Lula como um movimento de alto risco — em meio a uma relação cuja sintonia parece, cada vez mais, se dissipar.
