O esperado debate da Bandeirantes começou às 20h15, com 15 minutos de atraso, e colocou Lula e Flávio Bolsonaro num confronto marcado por ataques pessoais, provocações e cobranças sem resposta. Quem acompanhou os embates entre Lula e Jair Bolsonaro em 2022 já conhecia a rispidez de uma disputa polarizada. Desta vez, a agressividade dominou o palco e ofuscou a discussão de propostas.
Flávio veio para atacar
Quem esperava um Flávio Bolsonaro comedido encontrou um candidato disposto a partir para o ataque desde o início. O senador demonstrou preparação para provocar o adversário e insistiu em acusações contra Lula e seu filho. A estratégia foi manter o presidente sob pressão, levando o confronto para o terreno pessoal.
A provocação da carteira
Um dos momentos que melhor traduziram o ambiente ocorreu quando Flávio chamou Lula para ficar perto dele. O presidente respondeu que preferia manter distância. Veio, então, a provocação do senador: estava sem carteira e, portanto, não haveria perigo de ser roubado. A insinuação expôs o nível a que chegou o enfrentamento.
O pai entrou na resposta
As provocações também chegaram ao voto dos presos. Flávio perguntou a Lula por que, segundo ele, 70% dos presidiários votaram no petista. Ao mencionar ladrões de celular e assaltantes, o senador tentou constranger quem pretende votar no presidente, insinuando uma associação entre essa escolha e a dos criminosos. Lula respondeu com uma referência direta a Jair Bolsonaro: “Eu quero que 100% votem em mim, inclusive seu pai, que é presidiário”.
Moro entra no confronto
Flávio também recorreu à presença de Sérgio Moro na plateia para provocar Lula, apontando o ex-juiz como responsável por sua prisão. A referência provocou um princípio de aplauso, imediatamente contido pelos apresentadores. Até a plateia virou instrumento de pressão num debate em que os candidatos buscavam atingir os pontos mais sensíveis do adversário.
A pergunta que voltou
Lula procurou enfrentar uma característica da estratégia de Flávio: evitar respostas diretas a perguntas inconvenientes. Insistiu na cobrança de explicações sobre supostos recursos ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro, mencionando R$ 134 milhões. A cifra entrou no confronto como acusação do presidente, sem que Flávio apresentasse, naquele embate, a explicação cobrada.
“Você não responde nada”
A insistência se repetiu quando Lula perguntou sobre homenagens a milicianos no Rio de Janeiro e quis saber se o adversário pretendia adotar o modelo econômico de Javier Milei. Sem obter respostas diretas, o presidente ironizou que não adiantava perguntar se Flávio não respondia. Foi sua tentativa de expor ao eleitor o desvio das questões e interromper a sequência de ataques do senador.
Lulinha como arma
Flávio insistiu nas acusações envolvendo Lulinha e invocou o depoimento de Roberta para pressionar o presidente. Disse que ela estava disposta a falar e advertiu Lula de que poderia se comprometer ao defender o filho. O recurso manteve familiares no centro do confronto, enquanto as alegações eram usadas como munição eleitoral.
O troco de Lula
Lula devolveu a pressão ao prever que Flávio perderia a eleição e ficaria sem mandato e sem foro privilegiado, enfrentando problemas a partir de 2027. A fala levou o debate para o futuro político e judicial do adversário. De um lado e de outro, a disputa passou também pela tentativa de apresentar as consequências pessoais de uma derrota.
Einstein no SUS
Houve espaço para propostas, embora também elas tenham desembocado em confronto. Ao responder sobre saúde, Flávio repetiu uma ideia apresentada na sabatina da Band: levar ao SUS um modelo inspirado no Hospital Albert Einstein. Como referência, citou que o médico que pretende indicar para o Ministério da Saúde já foi diretor do hospital. Lula reagiu dizendo que somente alguém que não entende de saúde poderia fazer aquela comparação e acusou o governo de Jair Bolsonaro de passar quatro anos sem fazer absolutamente nada pelo SUS.
Propostas sob o peso dos ataques
É difícil apontar um vencedor num debate em que as provocações ocuparam tanto espaço. As propostas apareceram, mas ficaram ofuscadas pela disputa pessoal e tiveram pouco aprofundamento. O eleitor viu com clareza a hostilidade entre os candidatos; teve menos oportunidade de conhecer os caminhos que cada um pretende seguir para governar o Brasil.

